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quarta-feira, 10 de junho de 2015

ME BATA UM ABACATE // Bendita, ateia


Sérgio Maggio
Cronista do Gastronomix

De uma hora para outra, o local de trabalho, uma região de tranqüilidade para Ditinha, virou um inferno. Apaixonada, a chefe e mãe de santo Teresa (de Omolu) resolveu largar tudo e seguir para Europa com um consulente. Em seu lugar, assumiu Estevão, um homem sisudo, bíblico, evangélico de batismo. De imediato, Ditinha sentiu-se isolada, escanteada, sem assunto nos cafezinhos. O mundo se restringiu à sua rotina medíocre de conferir números, checar notas fiscais. Nada era motivo de piada, gargalhadas, comidas repartidas e confissões, muitas confissões com a chefia.

De poucas palavras, Estevão nitidamente achou a moça suspeita. A primeira agonia foi constatar que a única subordinada daquela seção portava guias de candomblé. Não poderia ser uma pessoa confiável. Verificou que, sobre a mesa da “perdida”, descansava uma figa de guiné, uma imagem de uma pomba-gira e um pote com sal grosso e alfazema. Resolveu então marcar território. Abriu uma Bíblia tamanho família ao lado do computador, daquelas com bordas douradas e afixou uma mensagem. “Jesus é a única verdade”.

Ditinha sentiu de imediato a pressão. Resolveu então ir toda de vermelho Iansã para o trabalho. Afinal, era quarta-feira, dia de saudar oyá. Soltou os cabelos cacheados, acentuou as contas e colocou lindas tamancas tribais. Chegou mais cedo e borrifou o ambiente com alfazema e pó de pemba. Trouxe ainda um tridente de Exú e fincou no vaso de “Comigo ninguém pode”, que colocou atrás da porta de entrada.

Estevão se sentiu provocado e resolveu pregar trechos de Salmos no Mural da Sala. Ligou para o Serviço de Informática e pediu que eles alterassem a tela de descanso dos dois únicos computadores daquela seção. Nela, Jesus abria os braços e um sol irradiava ao seu redor. Isso foi o suficiente para que Ditinha tirasse do guarda-roupa sua série de camisetas de Umbanda, com as frases estampadas no peito: “Exú é Fiel, “Seu Tranca Rua é poder” e “Com minha Padilha ninguém pode”. Imediatamente, Estevão rebateu com música ambiente gospel, saindo do alto-falante. O que fez Ditinha colocar fones no ouvido para escutar pontos de macumbas.
Não tinha jeito. Aquela seção virou palco de uma guerra santa. Os dois não trocavam um ‘ai”. Ele apenas checava o material dela, impecável diga por sinal, e rubricava. A vida seguia em riste quando, numa tarde de sexta-feira, Estevão e Ditinha foram para uma reunião. Era expediente da moça da limpeza. Entretida ao celular, foi limpado tudo e trocando de lugar. A miniatura da Maria Padilha foi para ao lado Bíblia Sagrada de Estevão, uma placa com versículo bíblico próximo à figa de guiné de Ditinha. Em alguns minutos, havia ali uma antropofagia religiosa jamais admitida por ambos.

Quando eles voltaram e viram aquela situação, entraram em profundo estado de silêncio. Estevão e Ditinha pareciam dois monges mergulhados em reflexão. Não me pergunte o que se passou na cabeça de cada um. O fato é que depois desse episódio uma inquietante harmonia se estabeleceu por ali.  

Ditinha e Estevão passaram a trocar palavras, interessaram-se um pelo outro, estabeleceram uma vida extra trabalho e tornaram-se amigos. Ele foi visto num terreiro de candomblé e ela num culto evangélico. Não se casaram, nem fizeram sexo. Apenas, ficaram amigos de todas as horas. Ele agora usa uma guia de Ogum. Ela, adora ler os salmos antes de sair de casa. E a moça da limpeza? Ao que se sabe, é uma ateia convicta. Não acredita em nada. Só na capacidade do ser humano de variar entre o divino e o diabólico.

quarta-feira, 27 de maio de 2015

ME BATA UM ABACATE // O que teria acontecido a Cris Charlote?

Sérgio Maggio
Cronista do Gastronomix

Havia alguma coisa errada com a história de amor de Benito e Cândida. Tudo parecia perfeito se não fosse um detalhe.  A moça descolada não queria que ele conhecesse a família. Logo ele, um cara que acredita piamente naquela máxima, “família é a base de tudo”.  Ela se irritava quando vinha dele a cobrança para um jantar. “Isso é coisa de novela das nove”, replicava. Noveleiro confesso, Benito se ofendia: “O que você tem contra os folhetins?”

A situação beirava o desgaste quando Cândida perdeu a paciência e resolveu ceder à pressão do namorado. Afinal, Benito era um pedaço de homem. Daqueles que, quando tirava a camisa, o povo se abanava e dizia “Ah, me bata um abacate!”. Para não perder esse “homem-vitamina”, Cândida marcou o encontro para o próximo domingo. “Na hora do almoço?”, vibrou Benito. “Melhor não, vamos ao cair da noite”, rebateu Cândida.

Benito era um coração aos pulos de tanta ansiedade.  Subiu os 25 andares de elevador como quem entrasse na igreja, sob a marcha nupcial e com as mãos encharcadas de suor. A porta do 2502 estava entreaberta. Ele bateu palmas, buzinou, disse alô e nada. Resolveu então entrar e se deparou com uma sala de estar deslumbrante.  Obras de arte de diversas correntes estéticas, do barroco ao contemporâneo, convivendo com peças sacras e esculturas geométricas. Ao fundo, uma varanda que revelava toda a pujança da megalópole. Enquanto admirava a paisagem, descobria que Cândida é filha de uma família riquíssima. Caminhou até esse espaço e, quando contemplava cada vão daquela vista, um som estridente invadiu o local.

Era um cão, ou melhor uma miniatura de cão, de latido finíssimo e continuado.  Estridente, histérico e descontrolado, o animal avançava sobre o tornozelo com dentes similares a de uma piranha esfomeada. Num ímpeto, Benito movimentou bruscamente a perna e, como num lance de futebol, o bicho voou pela sacada que nem uma bola em direção ao gol. Em questão de segundos, aquela desagradável criatura sumiu aos olhos. Podia-se ouvir uma batida do corpo estatelando-se ao chão quando uma doce voz interrompeu. “Então, você é o famoso Benito. Seja bem-vindo!”

A mãe de Cândida estava só. Logo, atrás vieram o pai e a filha. Todos, elegantíssimos. Ainda atordoado. Benito alegou estar nervoso porque entrou sem permissão. Os anfitriões trataram lodo de deixar o rapaz a vontade. “Cândida, minha filha, procure a Cris Charlote. Estranho, ela não estar aqui”, disse a mãe. De pronto, Benito se mostrou surpreso. “Não sabia que você tinha uma irmã!”. Todos riram. “É como se fosse. Cris Charlote é nossa cria canina. Está conosco há uma década. É uma cadela premiada internacionalmente. Ganhou vários desfiles na sua categoria. É adestrada e constantemente faz figurações em filmes, novelas e seriados”, contou o futuro sogro.
Benito perdeu a cor rosa das bochechas. Nervoso, simulou um mal estar. Todos se desconcertaram. “Desculpem-me, tomei uma vitamina de abacate antes de chegar aqui.”
A essa altura, o sumiço de Cris Charlote era um acontecimento. Benito escapuliu dizendo que precisava repousar. Meia hora depois, estava enterrando o corpo de Cris Charlote no jardim ao lado da Catedral. Uma década depois, o desaparecimento da cachorrinha é um mistério que atormenta a família. Os pais de Cândida vivem a se perguntar: “O que teria acontecido a Cris Charlote?”. Para aliviarem a solidão, convidaram a filha e o futuro genro para dividirem aquele monumental apartamento com eles.

Hoje, casados, Benito e Cândida vivem um mar de rosas, têm três filhos e nenhum animal de estimação. De vez em quando, para aliviar o segredo mortal, Benito visita o túmulo de Cris Charlote, coloca flores e saí dali para a primeira lanchonete, onde toma uma vitamina de abacate em intenção à alma da falecida.  

quarta-feira, 6 de maio de 2015

ME BATA UM ABACATE // O amor de mundos improváveis

Sérgio Maggio
Cronista do Gastronomix

Quando Jonas percebeu a existência de Paula, estava lendo um livro de frases famosas de William Shakespeare. Quando Paula notou a presença de Jonas, ouvia canções pop do Pará no Iphone.

Sentados no metrô, naquelas desconfortáveis cadeiras frente a frente, de quando em quando, eles cruzavam os olhares. Havia um arrepio crescente na pele, uma faísca no ar.

A primeira vez que Jonas observou Paula lia as palavras:

“Assim que se olharam, amaram-se;
Assim que se amaram, suspiraram;
Assim que suspiraram, perguntaram-se um ao outro o motivo;
Assim que descobriram o motivo, procuraram o remédio.”

A primeira vez que Paula fitou Jonas ouvia a letra da melodia:
“Você pode ligar pro meu celular
A hora que você quiser
A proposta está de pé,
Pra você passar o inverno comigo
E se a gente se der bem,
Passa o verão também.”

De pronto, Jonas pensou em se levantar, correr para o espaço central do vagão e, equilibrando-se no vazio, recitar um soneto decorado para todos ouvirem, como se fosse um desses ambulantes clandestinos que desobedecem as regras do metrô e vendem guloseimas baratas aos passageiros. Não teve coragem. Ela parecia perdida em seu mundo alheio.

Impulsiva, Paula sentiu vontade de pegar o IPhone da bolsa, fazer uma selfie com “cara de perdidamente apaixonada” e postar em todas as redes sociais:  #amoraprimeiravista, #excitada, #bocacarnuda, #queroumbeijo, #vidalouca, #paixãoquearrebata, #vidadesolteiratchau,

Conteve-se e seguiu, estação a estação, nesse jogo de olhares cada vez mais intenso.
O trem parece que voou até a derradeira estação. Chegou ao destino final. Ali, Jonas e Paula sairiam pela porta automática e seriam engolidos pela cidade sem tempo para flertes improváveis.

Como última tentativa, ele esperou ela se levantar e deixou o livro cair em sua frente, como uma cena barata de telenovela. Ela riu, tirou os fones do ouvido e balbuciou:

“Tem Facebook?”

Ele balançou negativamente a cabeça. Ela emendou: “Qual seu Whatsapp? Twitter? Instagram? Likendin?” Ele nervoso, com um medo incontrolável de perdê-la, emendou:

“Tenho CEP, RG, CPF, Título de eleitor e algumas dezenas de senhas alfanuméricas”.

E foi assim que Jonas, um homem do século passado, enlaçou-se a Paula, uma mulher do aqui e agora. Dizem por aí que os dois se visitam, mas cada um habita seu mundo. Ela postando cada menu que degusta com ele nas redes sociais.

#pratododiainlove, #vidademulherapaixonada, #namoradotop, #amoremcadagarfada, #romanceatenocachorroquente.
Ele enchendo a imaginação dela com fantasias literárias. Sempre conduzindo Shakespeare aos seus ouvidos:

“As palavras estão cheias
de falsidade ou de arte;
o olhar é a linguagem do coração.”

E foi assim testemunhando esse amor improvável, que fiz uma foto, de uma rosa boiando num lago de água esverdeada, Esta que acabei de postar no meu Instagram: #menospalavras, #maisflerte, #menosvirtualidade, #maisencontro, #menosostentação, #maissinceradade.

E para aqueles que deixaram de acreditar no encontro: #mebataumabacate!

O ABACATE DESSA COLUNA VAI PARA...
 a padaria que resolveu trocar o nome da torta de “nega maluca” para “bolo afrodescendente”.

quarta-feira, 22 de abril de 2015

ME BATA UM ABACATE // A língua incorreta de Dona Otília

Sérgio Maggio
Cronista do Gastronomix

Dona Otília fez 90 anos no dia 21 de abril de 2015. Ela não gosta da data do seu aniversário. Diz que aconteceu muita coisa espetaculosa nesse dia. É o enforcamento de Tiradentes, festa de aniversário de Brasília, morte de Tancredo Neves. É muita competição para ela que sempre gostou de reinar absoluta sobre a atenção dos filhos, netos e bisnetos.

Neste ano, ela queria uma festança num restaurante cheio de gente. Mas os filhos e netos acenderam o alerta laranja.   É que a senhora não tem medidas na língua e se recusa a fazer um download  para a cartilha do politicamente correto dos tempos modernos.

Por exemplo. Dona Otília não consegue chamar pessoas com deficiência física de “especiais”. Para ela, tudo é aleijado, maneta, perneta, manco, fanho.  Outro dia, a filha levou uma amiga que tem uma garotinha Portadora de Síndrome de Down e Dona Otília ao ver a menina sentenciou:

— As crianças mongoloides são anjos de luz, balbuciou.
Foi uma saía justa. A mãe ficou ofendidíssima e arrancou a menininha do colo de Dona Otília.
 A família tentou, por exemplo, ensiná-la que não se fala mais “retardado”, agora é “portador de déficit cognitivo”. Ou “anão”, “pessoa prejudicada verticalmente”.  E ainda louco, “portador de transtorno mental”

—  Quer dizer que puta agora é “profissional do sexo? Ah, me bata um abacate!

Assustados os familiares, resolveram afastar, ao máximo, Dona Otília do mundo exterior. Temiam reações raivosas dos ofendidos.  Resolveram então organizar um jantar em casa, só para os íntimos. Dona Otília não ficou de toda satisfeita, mas aceitou a homenagem de bom grado.

Todos chegaram cedo e cheios de mimos e felicitações. O ex-marido da filha deu uma lembrança singela e foi obrigado a se justificar diante do olhar incrédulo de Dona Otília.
— Dona Otília não repare. É só uma lembrança. Nesse momento, sou uma pessoa “entre empregos”.

Dona Otília lembrou-se da aula do “politicamente correto”, que teve com a família.
— Desempregado, você quer dizer! .

Uma das netas, moderníssima, fez questão de apresentar a parceira homoafetiva. Ao que Dona Otília, logo identificou como uma legítima “sapatão 44.”

— Minha filha se você é feliz com ela, faço gosto. Agora, é bom fazer um regime, que a moça tá é gorda.

Durante a festa, Dona Otília seguiu encantada com Severino, um garçom  assumidíssimo. Logo,  estava chamando o rapaz de “Viado”, “Bicha”, “Pederasta”. Todo mundo reclamou, mas Severino adorou.

— Sou nascido no Semiárido. Entendo Dona Otília, justificou o gay.
— Semiárido quer dizer nordestino, né cabra, replicou a senhora.
Ah, Dona Otília estava solta na festa.  Mas teve um momento em todos ficaram em pânico: Uma sobrinha-neta levou um amigo militante da causa negra. Tentaram evitar o encontro dos dois, mas não teve jeito. Eles ficaram frente a frente e conversavam animadamente para pânico geral.

— Adoro gente de cor, que assume seu cabelo duro, soltou Dona Otília.
O rapaz ficou calado, pensativo, e disse:

— Entendo a dificuldade que a senhora deve ter para entender que eu sou um afrodescendente e meu cabelo crespo reflete o orgulho da minha raça. Afinal, para uma pessoa da terceira idade que deve ter presenciado os resquício da escravatura.

— Terceira idade? Me bata uma abacate! Meu pretinho, eu sou uma velha pelancuda e lascada da vida, chegada num samba, que deu pra tudo que foi negão na adolescência e que adora conhecer gente diferente.

Os dois passaram a noite entre carinho e gargalhadas.

O ABACATE DESTA SEMANA VAI PARA ... que atirou num tatu e acertou a sogra. Isso é acerto paralelo.

http://www.gadoo.com.br/noticias/homem-atira-em-tatu-bala-ricocheteia-no-casco-do-animal-e-acerta-sua-sogra/

quarta-feira, 8 de abril de 2015

ME BATA UM ABACATE // O segredo da mala cor de rosa

Sérgio Maggio
Cronista do Gastronomix

Clemente é um morador de rua que andava meio borocochô com a solidariedade alheia. Aqui e acolá, estendia as mãos e só sentia o vento. Com vastas noções de marketing, tentou alterar o discurso. Passou a dizer: “Sabe aquela moedinha que você esquece no bolso? Aquela que cai no sofá quando você chega bêbado em casa? Sim, aquela que sobra da sua tintura mensal. Ela me deseja. Ela morre de amores por mim”.  As pessoas olhavam para ele como se fosse um ser esquisito. Nem uma de 25 centavos caía em sua graça.

Havia uma maré de azar sobre Clemente. Desde que largou a vida de vereador numa cidade pequena para se lançar ao sereno das ruas, não tinha encontrado um ombro para chamar de seu. Ele trazia numa mochila um álbum de fotografias para comprovar o passado inacreditável. Lá, habitavam a imagem do dia de posse e até a foto de Thalita, o pivô do abandono da vida com RG e CPF.

O sonho de Clemente era sentar com alguém para contar o infortúnio. O dia que flagrou Thalita fazendo “o que não devia” com Thaurus, o cão de estimação que ele criou desde pequeno. O pior: em sua cama, com o mais fiel dos amigos. Machista, Clemente não pensou duas vezes. Expulsou Thalita de sua vida e calou para sempre os latidos de Thaurus.  Pobre cachorro. Pobre Clemente. Tão irracionais.

De tempos em tempos, Clemente via Thaurus pelas ruas, como um fantasma. Ele saía correndo atrás do amante da noiva. “Thaurus, por quê? Por quê?”. O cachorro gargalha e dizia: “Clementina, me bata um abacate”. Numa noite de delírio, Clemente avistou uma mala cor de rosa próxima a um poste. Abriu e encontrou um mundo de lingeries, vestidos, blusas, saias e uma infinidade de acessórios (muitas perucas) e maquiagem. Pensou em vender tudo num brechó da esquina, mas a dona fez cara de nojo e dispensou o suposto comerciante.

Era uma tarde frienta e a temperatura maltratava o corpo desprotegido do nosso rapaz sem eira nem beira. De repente, ele, que imaginava se livrar daqueles bagulhos femininos, teve um impulso. Arrancou um longo vermelho de seda barata e cobriu o corpo. Saiu dali, com este visual impróprio pela calçada, arrastando a mala cor de rosa. Nem percebeu que os carros começaram a buzinar. Alguém gritou da janela de um ônibus: “Absurda!”
Só no meio do caminho, ganhou uma meia dúzia de sorrisos e, pasmem, oito reais e vinte e cinco centavos. Sem dizer nada. Sem sequer, estender as mãos. Chegou à beira-mar, foi até a areia, largou a mala cor de rosa, arrancou a roupa e mergulhou fundo, cortando as ondas, como uma musa caquética do Fantástico. Saiu congelado, vestiu uma suave lingerie, pôs uma calcinha de babados e cobriu-se com o vestido vermelho. Ajeitou o rosto. Pôs um batom rosa-chá, passou um pó de arroz nas bochechas e cobriu o cabelo ralo com uma vasta peruca castanha de cachos. Quando chegou ao asfalto, já atendia por Clementina, absolutamente sedutora.

Por onde passava, Clementina abria um rastro de galanteios, de moedas, de notas de dois, cinco, dez, vinte. O dinheiro tava jorrando. O português de um bar se encantou pela moça e ofereceu um galeto assado com farofa de ovos. Fez um convite para ela trabalhar no bar e não escondeu que estava arrastando as asas para a donzela de rua. Clementina se fez de difícil, mas, uma semana depois, era só gemidos na cama imensa do enamorado lusitano.

Hoje, Clementina toma conta da galeteria. É uma senhora fina, que desfila com dois poodles castrados pelas ruas. Não quer ser surpreendida de novo. Costuma levar um saco de moedas para distribuir para os sem-teto que atravessam o caminho. É feliz com sua vidinha, mas ainda tem os delírios o cão Thaurus.  De vez em quando, ele aparece gargalhando. “Clementina. Ah, me bata um abacate!”

O ABACATE DESTA SEMANA VAI PARA...

o homem que resolveu ejacular no café da colega de trabalho. Por favor, nem todo mundo gosta de café com leite. Leia mais aqui. 

quarta-feira, 25 de março de 2015

ME BATA UM ABACATE // Guerra das latinhas

Sérgio Maggio
Cronista do Gastronomix

Quando Tildeclaisson e Esternilson cruzaram o olhar, o complexo universo dos “seres humanos de nomes combinados” se desfez diante de um amor à primeira vista. Da vida, os dois carregavam essa estranha obsessão que alguns pais possuem em criar alcunhas inusitadas para os seus rebentos. Houve um tempo em que os atuais pombinhos viviam como aves acuadas pelos cantos. Motivo: portar, no RG, essa quilometragem de letras. Pense num bullyng pesado? Agora, pronuncie Tildeclaisson e Esternilson. Céus, por quê?

Tudo mudou, no entanto, quando os dois trocaram aquele primeiro beijo. Ali, foram invadidos por uma leveza tão grande que, quando um se apresentou ao outro, os nomes soaram tão minimalistas e poéticos.

- Ah, Esternilson, “o amor tem feitos coisas/ que até mesmo deus duvida/ já curou desenganados/ já fechou tantas feridas”, confessa Tildeclaisson, que tem a mania de usar frases de canções para se expressar.

Milagres do amor. Assim, um paraíso se abriu na vida dessas sofridas criaturas. A improvável reconciliação com os pais foi o capítulo mais feliz. Juntos, eles decidiram pedir perdão a esses alquimistas de nomes. Mais dramática, ela resolveu fazer um jantar para dona Tilde e seu Claisson e, no momento crucial do perdão, levantou-se e disse olhando para o pai.

- Oh, metade de mim, oh metade exilada de mim!

Depois, desvio o foco para a mãe e seguiu: - Oh, metade de mim, oh metade amputada de mim!
Juntos, os três entraram em coro:- Oh, metade de mim, oh metade adorada de mim!

A coisa não foi diferente na casa de Esternilson. Lá, ele, romântico que só, levou um quadro de presente. Os pais abriram e encontram a certidão de nascimento emoldurada num lindo quadro de moldura dourada.
- Entrego a vocês, a sua maior obra-prima, o meu nome!

Todos aplaudiram, choraram e se abraçaram. Tildeclaisson discursou:
- Quando eu estou aqui/  Eu vivo esse momento lindo/ Olhando pra você/ E as mesmas emoções sentindo...

UMA DÉCADA E MEIA DEPOIS...
Tildeclaisson e Esternilson tiveram três filhinhos: uma menina, Tildenilson, e dois rapazes, Esterclaisson e Claissonilson.  Atualmente, as coisas não estão muito harmônicas entre eles. Em idade adolescente, todos estão em crise, logicamente, por conta dos nomes. O problema, no entanto, é mais grave do que na época do país. Os jovens, como quaisquer jovens inseridos numa sociedade consumista, querem por que querem encontrar os seus nomes nas latinhas de Coca-Cola. É lógico que a missão é impossível.

- Todos os meus amigos têm os nomes na latinha. Até meu colega Mucilon, tem seu nome contemplado numa lata de leite, protestou Esterclaisson.

- Escrevi para a Coca-cola pedindo a inclusão dos nossos nomes e eles responderam que, no momento, é impossível. Não há como grafar. Simplesmente não cabe a quantidade de letras, lamentou Claissonilson.

- Nem o site da Coca-Cola permite criar a garrafa virtual, apontou Esterclaisson.
- Filhos, quem sabe há estudos para uma embalagem estilo latão de 1 litro que pode contemplar vossos nomes...
- Isso, sejam otimistas, ouçam seu pai e pense que “desesperar jamais, aprendemos muitos nesses anos, afinal de contas não tem cabimento, entregar o jogo no primeiro tempo, contemplou a mãe.

Calada durante toda a reunião, a filha interrompeu:
- Ah, gente, não... Eu sou tão feliz como Tildenilson. Sou única, exclusiva e singular nesse mundão dominados por Julias, Carols e Anitas. Estou namorando o Bucério e queremos ter uns cinco filhinhos. Já imaginaram os nomes?

Todos – Bucetilde, não! Ah, me bata um abacate!

O ABACATE DA SEMANA VAI PARA...
O abacate desta coluna vai para todos aqueles que transformaram a poética e política cena das atrizes Fernanda Montenegro e Nathalia Timberg, na novela Babilônia, num ato indigno e de ataque ao velho modelo da família brasileira.

quarta-feira, 11 de março de 2015

ME BATA UM ABACATE // Acarajé com espumante

Sérgio Maggio
Cronista do Gastronomix

Eu adoro antropofagias, mas igual à que a socialite Celinha faz num terraço luxuoso de Copacabana estou para ver. Uma vez por mês, ela convida amigas riquíssimas da alta carioca para um evento discretíssimo. Os preparativos começam logo ao amanhecer quando uma decoradora chega com 120 rosas vermelhas especialmente cultivadas. As pétalas são aveludadas e cada flor, quando aberta, tem o tamanho de um rosto de uma coruja adulta.  Logo depois, o bufê atravessa o hall de entrada com caixas e mais caixas de espumantes importados do tipo rosé e iguarias reservadas em travessas de tradicional louça inglesa.

No terraço, todas as mesas estão cobertas por toalhas brancas rendadas. A alvura, aliás, predomina na decoração e só é quebrada por esse vermelho intenso das rosas, que lembra a boca de batom marcada na gola da camisa do marido fanfarão, àquela que estraga qualquer casamento. As convidadas atravessam o salão, todo trabalhado em porcelanato italiano, exibindo as bolsas e as roupas de pura grife. No caminho, encontram os garçons de fraque e bebericam água de borbulhas francesas. Ao centro, entre cortinas translucidas, um quarteto de cordas toca música instrumental brasileira. No repertório, o melhor de Pixinguinha e Heitor Villa-Lobos.  Pense num requinte.
A anfitriã Celinha surge elegantíssima, sempre com um vestido que nunca mais vai repetir. Agradece a presença de todas e, em discurso econômico, defende a importância da solidariedade dos ricos aos negativados (adjetivo da moda no Brasil). As mulheres abrem as bolsas e tiram o que pode. Euros, dólares, reais e cheques polpudos são despejados numa arca de ouro, que Celinha trouxe de uma viagem ao Egito antigo. O clima de chá das cinco segue quando um movimento altera o compasso da festa.

Duas cortinas vermelhas se abrem e três homens vistosos e de troncos desnudos tocam um atabaque contagiante. As convidadas correm coreograficamente como pombas urbanas em revoada. A luz do ambiente cai. Celinha avança ao centro do salão em velocidade mínima. Sob um foco de luz intenso, parece se concentrar em si. Fala algo inaudível. Aperta uma mão contra a outra. De repente, todas as socialites invadem o ambiente, agora irreconhecíveis em turbantes e vestes de baianas estilizadas. Só não lembram mucamas por um detalhe: o excesso de cristais Swarovski aplicados sobre as golas, babados e bainhas. Elas dançam em torno de Celinha. Mas não aqueles passos de candomblé. Algumas, visíveis bailarinas do passado, fazem até uma meia-ponta com os pés, outras movimentam-se com um lenço de seda ao vento à la Isadora Duncan. Fecham uma roda em torno de Celinha, que só se abre quando uma gargalhada possante ecoa pelo ambiente.
Celinha não é mais Celinha. Ri, bati ombrinhos e embola a voz. Está incorporada pela Maria Navalha, uma poderosa e respeitada entidade da Umbanda. Todas as socialites comportam-se como serviçais dessa rainha negra. Duas delas tiram de um legítimo biombo chinês um vestido vermelho de seda pura, desenhado por um famoso estilista francês, e vestem o corpo possuído de Celinha. Outra traz uma joia de rubi de preço incalculável à primeira vista. Devidamente paramentada, a Maria Navalha ganha cigarrilhas importadas de Cuba e espumante francês. Nesse momento, os garçons, agora vestidos com cangas africanas, servem às participantes acarajés com espumante.

Apesar de tantas facilidades, a Maria Navalha de Celinha é firme nas questões espirituais. Pede para as mulheres compaixão com os desvalidos e abre uma roda de atendimento, na qual cada uma tem direito a uma pergunta de cunho pessoal, que deve sempre ser dita à frente de todas as companheiras. Há quem pergunte sobre qual o melhor destino para a próxima viagem ao exterior. Ou se devem ou não partir para a vigésima intervenção plástica. Educadíssima, a Maria Navalha discorre como uma psicoterapeuta e passa “receitas” variadas para abrir os caminhos. Para uma delas, sugere uma tradicional galinha preta com farofa na encruzilhada. A moça pergunta se não poderia trocar por um faisão com cuscuz marroquino. A entidade ri e avaliza.
As mulheres aplaudem, giram, dançam e cantam um ponto de Maria Navalha em inglês. Acreditam que fica mais sonoro. Feliz, a entidade se despede. Celinha rodopia. Quatro rapazes, caracterizados de escravos bizantinos, avançam pelo salão segurando em cada mão a ponta de um edredom recheado com penas de gansos canadenses. Colocam a peça sobre o piso e Celinha cai desfalecida para o fim do transe. Um casal de paramédicos acompanha tudo, tira a pressão e verifica os batimentos da médium. Antes de recobrar a visão, o quarteto de cordas volta ao ambiente e as mulheres retomam as etiquetas.

Celinha contabiliza as doações. Amanhã, vai em comitiva entregar cada centavo a um orfanato em Realengo.  Lá, aliás, a Maria Navalha baixa, fuma charuto barato, bebe sidra e rodopia no chão batido com a mesma desenvoltura. Quando perguntei se ela sentia saudades do luxo de Celinha, gargalhou. “Nego, ali, se botar um trago da cachaça no estômago da grã-fina, ela empacota. Por isso, aguento tanta frescura. Agora, acarajé com espumante é quase um sacrilégio. Vejo aquilo e peço ao guia-maior: Pai, me bata um abacate!” 

O ABACATE DESTA COLUNA VAI PARA...
A pastora, que jura ser ex-lésbica, disse ter visitado o inferno 15 vezes e encontrado um Vale de Homossexuais, visto por ela em diversos ângulos. Sei...

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

ME BATA UM ABACATE // “O Oscar não é mais aquele, olha a cara dele!”

Sérgio Maggio
Cronista do Gastronomix

Sempre achei a transmissão do Oscar uma cachaça mal tomada. Poderia até ser divertido para quem estava lá entre a extravagância do tapete vermelho e os babados da festa pós-estatueta. Para mim, era enfadonho. Caía em sono profundo antes que a tradutora da TV Globo tentasse fazer o impossível: explicar as piadas dos apresentadores. Alguém já riu delas?

Nem quando Fernanda Montenegro teve o prêmio surrupiado por aquela atriz que tem o nome de genérico, consegui algum tipo de ânimo. A minha lembrança mais lúdica da Noite de Gala da Academia, a que guardo entre os mimos da vida, é a da cantora Björk, deslumbrante, vestida de “cisne”, numa ação guerrilha contra os devaneios da alta-costura que ronda o milionário “red carpet”. Quer saber? Bati muito abacate em intenção à monumental caretice da festa do Oscar. Céus, o que são aqueles números musicais? E os agradecimentos intermináveis? Toda vez que começava um, visualizava o Coelho Branco de Alice correndo pelo palco e dizendo: “Ai, ai, ai... Vou chegar atrasado demais!”

Antes que me entreguem o troféu Framboesa de Ouro na categoria “mal-humorado do ano”, devo confessar que essa #chateação do Oscar é datada. Como se diz na Bahia, “passou’. Agora, conto nos dedos os dias para a tão esperada transmissão da cerimônia. Tornou-se, aliás, divertidíssima, um programaço, daquelas de avançar, sem culpas, a madrugada de segunda...
“Alto lá!”, interrompe-me um imaginário e marrento leitor desta crônica, que dormiu antes do apresentador Neil Patrick Harris aparecer fazendo gracinhas de cueca.  “A festa do Oscar”, vocifera o indignado, “continua a mesma chatice do século passado!”
Ah, isso é uma meia-verdade, meu antigo leitor. Sabe, a voz do Oscar continua a mesma, mas os seus cabelos”... Ou melhor, lembre-se daquele corinho de grupo de amigos bêbados em fim de festa, “O Oscar não é mais aquele, olha a cara dele”. E isso se deve a multidão que tira um sarro minuto a minuto nas redes sociais. Aliás, a Academia deveria dar uma estatueta para o criador do melhor “meme”. Não se pode mais assistir a um evento-porre como o Oscar sem estar on-line. Muda toda a percepção ao acompanhar as interações da audiência no Twitter, por exemplo.

Cher estaria, enfim, redimida. Quem não se lembra daquele remoto Oscar de 1986, quando ela apareceu fazendo a linha viúva negra desvairada. Espantada, a mídia oficial não conseguiu qualificar o modelito. Não há dúvida que muita gente o fez com maestria. Em muitos cantinhos do universo, devorou a roupa da moça em 140 caracteres. Só que naquele tempo , o comentário ficou entre quatro paredes. Ah, The Oscar goes to ... Todos que hoje fazem das redes sociais um inferno de Dante.

A cobertura espontânea, mundial e colaborativa da festa organizada pela liga dos vovôs e vovós de Hollywood é como um botox na face enrugada da cerimônia. De tanta brincadeira que surge, o sisudo Oscar está a cara do boneco  Ken.
O que são os memes da Meryl Streep, que explodiram após a atriz mais indicada vibrar com o discurso feminista da amiga (e rival) Patrícia Arquette? Há um em que ela grita: “Eu não sou o Laerte” (exagero compará-la a nossa fofa de saias). Em outro, cobra o risole de frango, que pediu há horas.  Faltou um assim: “Pare de olhar como se escreve impeachment no Google!” Ou outro: “Deixe FHC descansar em paz”.
E os vestidos? Sem os memes, eles passariam quase off-white. Aliás, alguém é capaz de explicar aquelas luvas vermelho-radiativo que adornavam a agora lírica Lady Gaga? Não faltaram comparações. A diva pop virou uma diarista ou a nossa desejada camponesa do leite  Moça. Dizem que 25 pessoas participaram da criação do figurino. O que queremos saber é quem colocou a cereja (ou melhor, a luva) no bolo de Gaga? Há apostas de que foi alguém a mando da endiabrada Madonna. Teoria da conspiração? Hollywood adora. Nós também...

 O abacate desta coluna vai para...
As subcelebridades que aprontaram todas e algumas mais e agora viraram “anjas do Exército da Salvação”... Para esse tipo de gente, só um Abacate na causa.

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

ME BATA UM ABACATE // Quando o abdômen sorri

Sérgio Maggio
Cronista do Gastronomix

Minha amiga Miloka está prestes a se aposentar. Vai finalmente cumprir o ciclo de serviços prestados numa multinacional e cair no mundo. O destino: Turquia. Não há dúvidas. A melhor cama, em uma vida paralela dedicada ao sexo, procede daquele país. Foi dali que a engenheira doidivana viu o cansaço vencer a sua inominável fome sexual. Ao passear boquiaberto pelas belezas naturais do Rio, o inocente turista nem imaginava que encontraria pela frente uma voraz atleta de edredons, aquela, em que um dia, os médicos quiseram taxar de “ninfomaníaca”.

Eles se conheceram numa tarde de quarta-feira na Praia do Arpoador, seguiram para um hotel em Copacabana e só abriram a janela para ver o sol raiar no domingo. Pela primeira vez em décadas de transas emendadas, Miloka pediu um tempo no meio do jogo. Não aguentou a tática de contra-ataque do turco e saiu daquele quarto querendo rever as estratégias do certame. Entrou em depressão. Achou que tinha perdido a identidade. Afinal, se fez mulher entendendo essa natureza furiosa e pretensa para o sexo. Foi como se tivesse perdido um campeonato, depois de ficar anos a fio com a taça nas mãos. Procurou o analista, doutor Roger, e disse que fracassou como “ninfomaníaca”.

A crise de identidade de Miloka abriu um precedente em sua louca vida. Ela resolveu dar uma chance ao amor. Experimentar sexo com o mesmo homem, no mesmo teto e com as contas em comum. Procurou um site de matrimônios e expôs os anseios. Não demorou para chover pretendentes. Enquanto todos respondiam as amenas perguntas triviais para se candidatar a futuro marido, Miloka se segurava para não saber o que, no passado, era o quê da questão. “Quantos centímetros?”. Sim, porque Miloka não ia pra cama com ninguém com menos de 17. Era a sua nota de corte.
 Agora, esse dado tinha virado secundário. Foi assim que conheceu Pinho, médico, viúvo e afeito a vida a dois. Eles marcaram num bistrô perto da praia. Pinho chegou galante. Miloka fez a linha introspectiva e apostou em silêncios prologados entre as respostas. Aos poucos, os dois foram se encaixando nas palavras e, duas garrafas de vinho depois, ela irrompeu a formalidade com a questão crucial: “Quantos centímetros?”. “Dezenove”, disse ele “Hmmm, é cabeçudo?”, prosseguiu a louca. Quinze minutos depois, estavam num quartinho do primeiro hotel vagabundo à vista, daqueles de coração de neon pulsando na fachada. Ela tentando arrancar a calça dele. Ele querendo desatar o nó cego do sapato. Devoraram-se.

Ele quis casar. Ela regateou. “Preciso de um motivo?”, clamou Pinho. Miloka quase se apaixonou. Desistiu porque Pinho tinha o abdômen triste, caído como uma face que se esmorece diante as chateações cotidianas. Dias desses, recebi um torpedo dela: “Sabe aquele homem do abdômen triste? Virou paciente do doutor Roger. Nos encontramos no consultório, aproveitamos o vacilo da atendente e transamos no banheiro social. O mais louco é que agora ele usa, por debaixo da roupa, aventais pintados com abdomens saradíssimos. Ui, um tesão. Acho que me apaixonei e a lua de mel será na Turquia.

 E aí? Vai bater um abacate?
O abacate desta coluna vai para a americana que não sorri há 40 anos para não ter rugas na face. Queria ver se ela encontrasse um homem apaixonado e de abdômen triste pela frente!

quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

ME BATA UM ABACATE // O nascimento do unicórnio transexual...

O Gastronomix estreia nesta quarta, 28 de janeiro, a coluna ME BATA UM ABACATE. Quem conhece o jornalista, autor e diretor de teatro Sérgio Maggio já registrou e deve ter usado em algum momento o bordão que dá título à coluna, expressão criada por ele como resposta aos absurdos da vida.

Sempre bem-humorado e sagaz, Maggio tem o dom da ironia, na hora certa. E agora, ele desfilará suas crônicas, causos e histórias no Gastronomix. A cada 15 dias, às quartas, um texto inédito e gostoso vai embalar a conversa à mesa...

Baiano radicado em Brasília desde 2001, Sérgio Maggio é aquariano, pai de Ingrid, filho de dona Ester. Formou-se em comunicação pela UFBA e atuou por muito tempo no jornalismo cultural, no qual se iniciou em 1993. Em Brasília, foi subeditor de Cultura e crítico de teatro do Correio Braziliense. É autor do livro Conversas de Cafetina (Arquipélago Editorial) -- finalista do Prêmio Jabuti, em 2010 -- e das peças teatrais: O Cabaré das Donzelas Inocentes; Eros Impuro e Eu Vou Tirar Você Deste Lugar -- as duas últimas dirigidas por ele próprio.
Sérgio Maggio
Cronista do Gastronomix
 
Foi-se o tempo em que acordávamos com os jornais em mãos para saber o que os jornalistas (e eu sou um deles), estes seres que até o finalzinho do século passado se sentiam como oráculos do Universo, selecionavam o que o cidadão deveria ou não saber sobre este mundão de tantos deuses. Agora, muito antes de tocarmos no papel jornal, que ainda solta tinta como antigamente, as “notícias” pulam aos nossos olhos como crianças na hora do recreio. Duas delas me inquietam pelo grau de traquinice.

 “Mulher de três seios é presa por dirigir bêbada.”

“Com 190 intervenções estéticas no corpo, Ken Humano dos EUA decide implantar asas.”
Nem é preciso avançar na leitura para imaginar o conteúdo dessas pós-manchetes contemporâneas. Os títulos trazem em si toda a construção jornalística. Leio as duas separadamente e fico, como um menino, imaginando coisas. Quem sabe o sonho de Ícaro do Ken humano fosse ter em seus braços uma enlouquecida Barbie de três seios? Será que construiriam uma nova família perfeita? Ele com 191 intervenções cirúrgicas, ela com o terceiro mamilo, que nunca quis extirpar. 

E se o Ken convencesse-a a turbinar os três seios? Colocar silicone em cada um transformando-a na Mulher-Uva, àquela em que os mamilos dão em cacho. E o Ken? Depois de passar meio século em bocas de Matildes, suspeito de um namoro-fachada com a Barbie, supera a crise de identidade ao transformar no másculo Homem-Pássaro.
As questões existências são muitas entre esses dois estranhos e poéticos (por que não) seres. Qualquer chefe de redação vai querer que a reportagem sobre o casal responda às questões bipolares: Por que será que a mulher de três seios fica bêbada e saí por aí dirigindo? Felicidade ou depressão? E o Ken? Por que ele quer ser perfeito como um boneco? Vaidade ou obsessão?  Talvez não seja nada disso. Talvez seja tudo isso.

“Ah o ser humano”, como suspira de tempos em tempos uma amiga querida jornalista que trabalha num antigo jornal. O ser humano é essa loucura toda, que nunca coube nas redações senis, cheia de gente que não entende a loucura de um Ken humano pôr asas nem de uma mulher de três seios em tomar todas (em que pese a grave infração da direção perigosa). Os jornais tinham a missão de dar uma sanidade ao homem, bicho doido, filtrando o “bizarro”, “o circo dos horrores”, sem querer entendê-lo, talvez enfrenta-lo pelos olhos do não julgamento. Como um bom avô tradicionalista, envelheceu com tremores nas mãos, visão turva e um ranço de nostalgia.
Agora, essa criança incontrolável, ainda quase indomável, chamada de internet, quer escancarar as janelas do mundo, sem pudor algum. Até ser educada, podada, aculturada e socializada, vai quebrar os canecos (cuidado, alguns cacos são cortantes e mortais). E os internautas, voyeurs de um tempo em transição, que não se assustem se do casamento do Ken de asas com a mulher de três seios nasça um lindo Unicórnio transexual. Será que vamos aceitá-lo? Ou o condenaremos, como velhos leitores de jornais, ao gueto, assim como fizeram, outrora, com outros estranhos?

Enquanto isso, chega a notícia do último segundo: “Anitta e Claudia Leitte sensualizam juntas em ensaio da Mocidade”...

Ah, que saber. Me bata um abacate!