quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

AO PÉ DO OUVIDO // Sentimento pouco é bobagem

Por Rosualdo Rodrigues

Num país onde surge uma nova-cantora a cada semana, gastamos muito tempo discutindo se aquela moça que a Folha, a Veja ou o que seja apresenta como a grande revelação do momento é mesmo a graaaaande revelação do momento. Assim, acabamos esquecendo de usufruir tesouros escondidos no fundo do baú.

Digo isso porque por estes dias andei revirando discos e me deparei com uns antigos de Nana Caymmi. Fui ouvi-los e me maravilhei como se estivesse escutando aquilo pela primeira vez. Não que não soubesse que Nana Caymmi é uma cantora fantástica (até outro dia mesmo a gravação dela e Erasmo de Não se esqueça de mim tocava em Caminho das Índias). Também não faz tempo que Nana lançou um disco, Sem poupar coração. Muito bom por sinal.

Mas aquela Nana de Mudança dos ventos e Voz e suor (dois dos melhores discos dela) me deixou extasiado.Primeiro, porque me dei conta que Nana Caymmi é, como Maria Bethânia, do time das inimitáveis. Única. Você encontra novas-cantoras que lembram Elis Regina, Gal Costa, Marisa Monte (todas essas grandes intérpretes, sem dúvida). Mas nunca confunde a voz de uma novata com a de Nana ou com a de Bethânia.

Segundo, porque faz tempo que não ouço ninguém cantar os sentimentos com tanta intensidade. Nas interpretações de Nana Caymmi, a dor é dolorida mesmo e o prazer é o paraíso. Não tem meio termo. Ela escolhe as músicas a dedo – feeling para o repertório certo é uma qualidade que muitas boas cantoras não têm – e se entrega por completo a elas sem que isso, curiosamente, soe exagerado. Quando ela canta Mudança dos ventos sou capaz de jurar que Ivan Lins é o melhor compositor do planeta. Mas (sem tirar o mérito da composição) é o jeito de cantar de Nana Caymmi que torna aquilo tão bonito quanto é.

Com Nana Caymmi é assim. Emoção pouca é bobagem. E os sentimentos intensos que ela expressa fazem falta não só na música atual, mas nas relações em geral. Acho que foi isso que me surpreendeu ao ouvi-la. Tinha esquecido que os seres humanos já foram capazes de sentir tanta paixão.

P.S. – Voz e suor é um disco de voz e piano. Só Nana e César Camargo Mariano. Uma pequena obra-prima, só recomendável para quem não tem medo de ir fundo.


Dez canções de cortar coração na voz de Nana Caymmi:

1 ) Mudança dos ventos
2 ) Contrato de separação
3 ) Não me conte
4 ) Segue teu destino
5 ) Fruto maduro
6 ) Resposta ao tempo
7 ) Se queres saber
8 ) Meu silêncio
9 ) Tens (Calmaria)
10 ) O que é que eu faço

domingo, 7 de fevereiro de 2010

EU RECOMENDO // Na Europa e no Brasil


Por Carlos Marcelo (*)
Convidado especial do Gastronomix

“O clima e a imigração fazem de Curitiba uma capital brasileira com jeitão europeu. Ou, pelo menos, em alguns meses do ano e em alguns bairros da cidade, como na zona central. Pois bem: lá no centro histórico, há um restaurante surpreendente. É o Durski, que nasceu com a vocação de oferecer pratos da culinária polonesa e ucraniana, mas há dois ou três anos ampliou o cardápio para incluir receitas francesas e italianas.

Em que pese a quase-certeza da qualidade dos novos pratos por conta da credibilidade do chef Junior Durski (foto), eu não tenho duvidas: da próxima vez que for a Curitiba, irei ao Durski para bisar o banquete eslavo. Uma fantástica combinação que permite apreciar um pouco de cada receita - quase todas recheadas de consoantes: borstch (sopa de beterraba e repolho), holopti (charuto de repolho), platzki (panquecas de batata) e o inesquecível pierogi (com recheio de batata e ricota, mais linguiça defumada).

O atendimento também é de primeira, e a adega também é bem abastecida. A conta pode ficar bem elevada, mas, na relação custo-benefício, vale a pena. Mas atenção: o restaurante só abre para almoço aos sábados e domingos e convém fazer reserva.

Em Brasília, por sua vez, não há experiência mais brasiliense do que seguir até a região central da Asa Sul, "o centro histórico" da cidade por ali terem sido construídos os primeiros blocos de apartamentos residenciais, e pedir uma carne de sol completa no Xique-Xique.

Em menos de 10 minutos, as travessas de alumínio estarão na sua mesa, transbordando de carne no ponto certo, acompanhadas da imbatível combinação: feijão verde, arroz branco, paçoca, macaxeira, coentro e manteiga da terra. Uma porção serve dois adultos e, dependendo da fome, ainda vai sobrar muita comida - não se acanhe de pedir para os garçons (figuraças!) embalarem o que sobrou e levar para casa.

Para fazer o quilo, vale um passeio pelas cercanias - chance de admirar a Igrejinha projetada por Niemeyer, adornada pelos azulejos de Athos Bulcão e encravada na mais genial contribuição do urbanismo no século 20: a superquadra inventada por Lucio Costa, o criador de Brasília”.

Durski
Avenida Jaime Reis 254
São Francisco - Curitiba (PR)
Telefone: (41) 3225 7893
Site:
www.restaurantedurski.com.br

Xique Xique
CLS 107 bloco E loja 2
Asa Sul – Brasília
Telefone: (61) 3244 5797

(*) Carlos Marcelo é jornalista, paraibano, autor dos livros Nicolas Behr - Eu Engoli Brasília (2003) e Renato Russo - o Filho da Revolução (2009).

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

DRINK_ME // Warm Up no B4


Por Juliana Raimo

A casa B4 (trocadilho com a palavra “before”) se tornou uma grande atração no Itaim (SP) e consta com uma ótima carta de drink para animar os endinheirados. Está localizada na rua Amaury, no andar superior do restaurante Ecco. No lounge, projetado pelo arquiteto João Armentano, é possível pedir vários drinks assinados pelo barman Bruno Chasseraux, como o Watermelon Peper, o 007 e o Mandarim.

O primeiro (Watermelon Peper), leva gin Tanqueray Ten, triple sec curaçau, sirop de melancia, tabasco e açúcar de pimenta. A melancia, por ser suave e doce, fica excelente com um toque de pimenta deixando o drink mais interessante.


O drink 007 leva gin Tanqueray Ten, gotas de vermute francês Lillet, vodka Smirnoff Black e lemon twist. A novidade do tradicional Dry Martini é a vodka Black, que deixa o drink com cor inusitada.

Já o Mandarim mistura vodka Smirnoff Black, Cointreau, geléia de tangerina e laranjinha kimkam. Um drink para os que gostam de algo mais cítrico. Os drinques custam R$ 25 cada.

Quem aprecia uma bebida elegante pode usufruir de coquetéis a base de champanhe, como o Champagne Strawberry, que chama atenção pela sua cor vermelha. A bebida leva purê de morangos com gengibre, sherry brandy e espumante. O gengibre faz toda a diferença. R$ 21,00.


O barman Bruno Chasseraux, que assina a carta de drinks, tem experiência de quatro anos em bares, eventos e casas noturnas. Além disso, possui conhecimentos em todos os drinques clássicos e é autor de uma série de coquetéis.

B4
Rua Amaury, 244 (andar superior do Ecco)
Itaim Bibi - São Paulo (SP)
Telefone: (11) 3071 2910
Funcionamento: terça a sábado, das 21h30 às 2h

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

AO PÉ DO OUVIDO // Os gremlins vão para Beyoncé

Por Rosualdo Rodrigues

Por ser este um blog de gastronomia, me esforço por falar na coluna de uma música mais, digamos, digerível (e que não se entenda por isso “música fácil”). Mas não me contenho em falar hoje sobre Beyoncé. Afinal, a mulher ganhou seis Grammys: canção do ano (a irritante Single ladies!!!), melhor performance vocal feminina pop, melhor performance vocal feminina de R&B, melhor performance vocal feminina tradicional de R&B, melhor canção R&B e melhor álbum contemporâneo de R&B.

Tudo bem, sabemos que o Grammy tem mais a ver com desempenho de mercado do que com qualidade musical. Mesmo assim dá certa indignação vê-la ser incensada pretensamente como o que há de melhor da música norte-americana enquanto dezenas de músicos maravilhosos são ignorados. E olha que não sou tão radical. Se estou na pista e toca Beyoncé, danço. E Halo é uma baladinha até bonitinha. Mas não acho que a música dela desça redonda.

Afinal, o que é essa maçaroca sonora de R&B, como chamam o gênero seguido por Beyoncé e cantoras afins? Tem mesmo a ver com o rhythm&blues original (leia mais no link abaixo)? Não se pode dizer que é uma evolução do gênero. Uma involução, talvez. É repetitivo, não se sustenta como música, tem que ter o circo da mídia em volta, os shows superproduzidos com coreografias em excesso. E ventilador no cabelo, claro.

Tem vozeirão? Tem. Dança pra caramba? Parabéns pelo preparo físico. Tem peitão, bundão?Inegável. Nada disso, no entanto, é prova de qualidade musical. Juro que me esforço para entender se essa opinião é decorrente de mero gosto pessoal ou de um olhar crítico, isento. Se a primeira opção for a correta, perdoem-me os fãs da cantora. Mas creio que, em vez de Grammys, ela merece uns gremlins. Muitos deles. Argh!

Link sobre rhythm&blues
http://www.millarch.org/artigo/o-curso-intensivo-para-conhecer-rhythm-blues

Link para paródia-tradução de Single ladies
http://www.youtube.com/watch?v=h3BT0uJQIZU

sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

DRINK_ME // Drinks de verão


Por Juliana Raimo

Os drinks de verão estão invadindo os bares e restaurantes da cidade. Um exemplo deste movimento é o recém-criado Clericot, do Bistrô Charlô em São Paulo. Uma espécie de Sangria branca que tem como base o espumante rosê ou vinho branco seco e uma mistura de frutas frescas: abacaxi, laranja, tangerina, morango e maçã.

Clericot (Sangria Branca)


Uma excelente idéia para beber em grupo e aproveitar ainda mais o verão. Vem em uma jarra que serve seis taças bem cheias. O mais gostoso é comer as frutas que ficam embebidas no vinho.

Para os que preferem algo mais forte, a casa serve também uma Sangria de vinho tinto com as mesmas frutas acima. É uma bebida doce refrescante super saborosa. A sugestão do Charlô como entrada é pedir as minicoxinhas da Dadá. Uma delícia!

Sangria de Vinho Tinto

Apesar de ser um costume europeu, os drinks que são compartilhados entre amigos começam a fazer sucesso no Brasil. Para um almoço em sua casa, é algo original, que mantém os ânimos exaltados. E o mais bacana é poder fazer uma jarra bem grande que serve várias pessoas sem ter que passar o dia na coqueteleira.

Bistro Charlô
Rua Barão de Capanema, 440
Jardins
- São Paulo
Telefone: (11) 3088 6790
Site:
www.charlo.com.br/bistro

GASTRONOMIX // Saio de férias, mas o blog continua


Olá meu povo querido,
saio finalmente de férias nesta sexta-feira. Serão 30 dias.
Irei para terras geladas: Inglaterra, Turquia e Itália.

O blog Gastronomix continua com os posts dos nossos colunistas - Rosualdo Rodrigues e Juliana Raimo.
A coluna Eu Recomendo, todas às segundas, também continua.

Pretendo realmente não postar. Preciso descansar. O ano promete. Ano de escrever minha dissertação de mestrado. Mas anotarei dicas desses lugares e vou tirar muitas fotos.

Na minha volta, em março, conto as novidades.

Abraços e fui...

Rodrigo Caetano

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

AO PÉ DO OUVIDO // Para esquecer o fim do mundo

Por Rosualdo Rodrigues

Janeiro de 2010 vai ficar na minha memória como “o mês em que eu não conseguia parar de ouvir La Roux”. O som dessa dupla inglesa é uma das coisas mais deliciosas feitas nos últimos tempos. Um electropop alegre, vibrante, alto astral, com uma forte influência dos anos 80, mas ao mesmo tempo muito atual (digamos que faça um meio de campo entre Gossip e Lady Gaga....)

A vocalista, Elly Jackson, é algo à parte, com seu topete ruivo, batom laranja e estilo meio andrógino. É ela a imagem do La Roux. Mas outra parte importante no processo é Ben Langmaid, co-autor e o homem que mexe os botõezinhos, seguindo a tradição de duplas de electropop dos anos 80 (Pet Shop Boys, Yazoo, Erasure, Softcell...). Os dois chamaram atenção dos ingleses no ano passado e agora concorrem ao Brit Awards (grande prêmio da música britânica) nas categorias de revelação e melhor single (In for the kill). A entrega é em 16 de fevereiro.

Lançado em junho de 2009 na Inglaterra, o disco de estréia do La Roux até hoje não teve edição brasileira nem tem previsão de ter. Há edições importadas, a preço salgado, no site da Livraria Cultura. Mas é possível conhecer a dupla por meio dos muitos vídeos deles no You Tube. O de I’m not your toy – que forma com Bulletproof e In for the kill a santíssima trindade do repertório – é fantástico, inusitado e engraçado, pelo contraste entre a franzina e cool Elly e as barbies negras entojadíssimas que dançam em torno dela.

A propósito, Elly Jackson já avisou que o segundo disco do La Roux não terá nada a ver com o primeiro. “Mudei a forma de cantar. Não foi de propósito, foi algo que aconteceu”, disse em entrevista à BBC. Disse também que não tem ouvido mais coisas dos anos 80 e isso vai refletir no disco. Tem preferido italo disco e soul antigo. Pode ser que seja ainda melhor, pode ser que não.

Na dúvida, é melhor curtir ao máximo esse álbum de estreia, ideal para esquecer que a Terra está à beira de um colapso e a humanidade está sendo tragada por tsunamis, terremotos e chuvas torrenciais. Afinal, se afundar é inevitável, vamos afundar nos divertindo. “This time baby I’ll be buuulleeetprooof...”

Links
Livraria Cultura: http://www.livcultura.com.br/
I’m not you toy no You Tube: http://www.youtube.com/watch?v=ew_c5ewoVQk&feature=fvst