quarta-feira, 30 de setembro de 2009

AO PÉ DO OUVIDO // O (não) sentido da coisa

Por Rosualdo Rodrigues

Há músicas sobre desencontros amorosos, sobre a felicidade de amar, sobre amizade, sobre solidão. Há músicas sobre problemas políticos e sociais, músicas que contam histórias engraçadas ou que têm uma letrinha de nada, só pra gente cantar junto (algum lererê, lalaiá...). E há músicas sobre o que só Deus e o autor sabem do que se trata. Como uma obra de arte conceitual, precisam de explicação.

Alguém saberia me dizer, por exemplo, do que fala Frevo mulher, de Zé Ramalho? “É quando o vento sacode a cabeleira, a trança toda vermelha, um olho cego vagueia procurando por um”. E Jesus, que Ney Matogrosso e Pedro Luís e a Parede gravaram no disco Vagabundo? “Dizem que Jesus morreu na cruz, mas estive com ele na Dutra em Queluz, trazia na cabeça um tabuleiro de cuscuz. Cocada de céu, cocada de luz”.

Desde que vi O império das meias verdades, de Gerald Thomas, descobri que não precisava compreender algo para me encantar com aquilo (fosse peça, filme ou uma música). Pelo menos não compreender no sentido padrão do termo. Vi o espetáculo e fiquei maravilhado, acompanhei com imenso interesse aquilo que nem sabia do que se tratava.

Deve ser o mesmo tipo de encanto que têm músicas como essas. Compreendemos uma frase mas não por que ela emenda com a seguinte. Qualquer sentido nos escapole de um verso para outro. Talvez nem o próprio autor tenha o que explicar, porque sabe-se lá o combustível que ele usou para aguçar a inspiração quando compôs.

Sendo assim, o nonsense é o que as torna encantadoras. Resta ao ouvinte entendê-las como bem quiser. Afinal, nem mesmo as canções aparentemente óbvias escapam das explicações mais díspares. O mundo é um moinho, de Cartola, todo mundo entende como o discurso de alguém que tenta convencer o parceiro/parceira a não partir, mas o compositor fez para a filha que estava saindo de casa. Da mesma forma, um crítico escreveu que a música Farol, do disco mais recente de Wander Lee, era a canção de amor mais piegas que ele tinha escrito. E o músico a criou como uma canção de ninar para a filha pequena.

Daí que, “tatu andou, Jesus. Tatuapé, São Paulo”...

Dez músicas sobre o que não se sabe exatamente o quê (e nem precisa saber):

1 ) Frevo mulher, Zé Ramalho
2 ) Jesus, Ney Matogrosso e Pedro
3 ) Magamalabares, Marisa Monte ("Magamalabares/ Acqua Marã/ Um barquinho oxaiê")
4 ) Caso você case, Vital Farias ("Caso você case/ não escreva a nota/ não destrave a porta/ não esteja morta/ não estrague a horta")
5 ) Brumário, Lulu Santos ("No dia 19 brumário/ Tel aviv, hein; c'est laviem, bem/ Que a hiena gemeu")
6 ) Obi, Djavan ("Obi, obá, que nem zen, czar/ Shalon/ Jerusalém, z'oiseau/ Na relva rala meu arerê tombara")

4 comentários:

Rodrigo Caetano disse...

Olá Queridão,
sempre é bom ler um texto seu.
sempre é bom saber que mesmo de tão longe, temos referências e ligações com pessoas que são do nosso universo.
Adorei sua coluna de johe. Saudades!!!!
Rodrigo Caetano, de Berlim

Lyvia disse...

Boa noite,

Estou passando para informar que amanhã é o dia mundial do vegetarianismo. Em função disso o Genaro Jazz Burger Café estará com uma promoção especial, dando 25% de desconto no cardápio vegetariano.
A promoção segue até o dia 7. Funcionamos todos os dias a partir de meio dia.
Aguardo sua visita e conto com sua ajuda na divulgação.
Desde já obrigada!

Lyvia Justino
Genaro Jazz Burger Café

Roberio disse...

Rosualdo, adoro seus textos neste blog.Toda quinta entro pra conferir.
Abraço
Robério

Olga Costa disse...

Lembrei uma história bem legal, enquanto lia teu texto. Certa vez, alguns fãs começaram a especular o que Neil Peart (baterista e letrista do Rush) queria dizer com The Trees, música que faz parte do disco Hemisphere de 1978. Resumindo, a letra fala de vários tipos de árvores, umas altas, outras baixas e existem diferenças e reivindicações a respeito do espaço, algumas com muito sol, outras nas sombras, etc. Toda essa história, levou os fãs a cogitarem possibilidades de significados (como aconteceu com Bob Dylan)do que Neil falava, como diferenças de classes, do poder aquisitivo, comunismo, etc, etc. Um belo dia, alguém perguntou ao Neil do que se tratava afinal aquela letra! E ele apenas respondeu:"I was talking about trees!" (eu estava falando de árvores!). :-) Beijos, miss you muitão! Olga