sábado, 10 de maio de 2014

ABOBRINHAS // O ABC da alimentação segura

Luciano Milhomem
Colunista de Alimentação Natural do Gastronomix

Há restaurantes que fazem questão de ter suas cozinhas à mostra. Elas costumam ficar atrás de paredes de vidro para que os clientes vejam como os chefs e seus auxiliares preparam os pratos. Outros, ao contrário, mantêm seus fogões e panelas no subsolo, ao qual somente o dono e os funcionários da casa têm acesso. Só que pouca gente está realmente preocupada com a qualidade dos produtos ou com a higiene do lugar onde se alimenta. Mas isso pode estar prestes a mudar.

A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) anunciou, na última sexta-feira 2, os resultados do primeiro ciclo da Categorização dos Estabelecimentos de Alimentação e os selos que bares, restaurantes e lanchonetes participantes receberão da agência. Dentro de relativamente pouco tempo, os brasileiros terão, para esses estabelecimentos, referências semelhantes às estrelas dos hotéis. Ficará mais fácil escolher onde comer, seja um simples sanduíche, seja um risoto de legumes.
As notas desse primeiro ciclo permitem ter uma ideia da situação geral das cidades participantes do projeto. Na atual fase, a Anvisa orientará as correções que os estabelecimentos devem adotar. Após o segundo ciclo de inspeção, bares, lanchonetes e restaurantes começarão a receber os selos, que deverão estar afixados em local visível para os clientes.

A expectativa da Anvisa é de que as cidades finalizem o segundo ciclo até o final deste mês, e os estabelecimentos comecem a fixar os selos com a classificação – A, B ou C – logo em seguida. Segundo o diretor de Gestão Institucional da Anvisa, Ivo Bucaresky, a Categorização é um projeto inovador que permitirá, pela primeira vez no Brasil, que os cidadãos conheçam a situação sanitária dos estabelecimentos de alimentação de onde moram.
“Um estabelecimento mais luxuoso ou mais caro nem sempre significa uma situação sanitária melhor. Para o cidadão, é uma questão de transparência poder conhecer a situação de cada local”, afirma Bucaresky. O projeto também permite que as cidades possam agir mais estrategicamente, focando suas ações nos estabelecimentos com maior número de irregularidades. O projeto-piloto é voltado para a Copa do Mundo 2014 e busca alcançar tantos os moradores das cidades quanto os turistas.

O projeto inclui 11 cidades-sede da Copa do Mundo FIFA 2014 e mais 13 municípios. Engloba também os aeroportos das cidades-sede da Copa, já que nesses locais a própria Anvisa faz diretamente a fiscalização. As únicas exceções são o aeroporto de Manaus, em reforma, e o município de Salvador, que não aderiu ao projeto. Segundo Bucaresky, a Anvisa avaliará o projeto-piloto no segundo semestre de 2014 para que se possa ampliá-lo a todo o Brasil.

Esse tipo de classificação já existe em outros países. O resultado costuma ser a melhora do perfil sanitário dos estabelecimentos e a conscientização do cidadão e dos serviços de alimentação, que passam a identificar mais claramente suas principais falhas e o impacto delas. A Anvisa cita como exemplos de experiências bem-sucedidas os sistemas adotados em cidades como Los Angeles, Nova York e Londres, bem como em países como Dinamarca e Nova Zelândia.
Os resultados dessa primeira fase do projeto da Anvisa indicam que 20% dos estabelecimentos entraram na categoria A; 40%, na B; e 24,4%, na C. Nesse grupo, 15,6% figuram como “pendentes”, ou seja, apresentam quantidade de falhas superior ao padrão mínimo estabelecido. Para esses, convém fechar a boca e abrir os olhos!

Mesmo a turma do “se não mata, engorda” tem, a partir de agora, e mais ainda em futuro próximo, um bom motivo para pensar duas vezes antes de comer como se tivesse estômago de avestruz. Afinal, o oposto do adágio popular também vale para algumas lanchonetes, bares e restaurantes: “Se não engorda, mata.”

Os bem-humorados nordestinos anteciparam-se à Anvisa há muito tempo. Não faltam estabelecimentos de venda de alimentos no Nordeste com uma curiosa inscrição à porta: “Comeu, morreu.” Esses podem até não receber selo de qualidade da Anvisa, mas merecem nota máxima em franqueza e bom humor.

2 comentários:

Josuee Lima disse...

Onde se lê ANVISA leia-se FIFA.

Luciano disse...

Josuee, a ANVISA promove ações de controle e prevenção o tempo todo. Independentemente disso, ter a Copa como foco não é algo ruim. Ainda que a iniciativa fosse da FIFA, seria louvável. Quanto mais inspeção tivermos em bares e restaurantes, menos gente teremos em hospitais.