segunda-feira, 31 de maio de 2010

EU RECOMENDO // Vinho, poetas e mosqueteiros


Por Rodrigo Leitão (*)
Convidado especial do Gastronomix


“Eu bebo vinho desde criança, por tradição familiar. Venho de famílias portuguesas, dos dois lados. Mas só me apaixonei pela bebida de Baco há uns 11 anos. Ainda bem! Caso contrário, teria deixado passar em branco uma das grandes experiências da minha vida, muito pelos vinhos, um pouco pela comida, mas especialmente pelas locações. Assim como vinho, gosto muito da literatura francesa dos séculos 18 e 19, dos iluministas aos românticos, de Victor Hugo a Baudelaire. Na minha infância, filmes com heróis de capa e espada povoavam meu imaginário. Não esqueço a primeira vez que vi “O Homem da Máscara de Ferro” (a primeira versão, em P&B, numa Sessão da Tarde). Mas você leitor deve estar pensando: “e o que isso tem a ver com essa seção do Gastronomix?”

Aparentemente, nada. Mas é que em uma das minhas viagens a Paris eu vivi uma experiência inesquecível, que juntou essas três paixões em dois locais bem interessantes. O primeiro deles foi numa casa chamada Maison Lapérouse. O segundo, num pub muito conhecido dos jovens estudantes da Sorbonne, o L’ecurie.

Era 1999 e eu tinha ido a Paris pra fazer duas coberturas, o primeiro vôo da TAM saindo de São Paulo e o pré-lançamento do Clio. Mas o jornal não tinha me dado diárias e como eu iria ficar uma semana na cidade, me desafiei a circular com apenas 300 dólares no bolso, pra depois escrever como se virar em Paris, comendo e bedendo razoavelmente bem, com cerca de 600 reais ou 250 euros (ao preço de hoje).

Numa das minhas extensas caminhadas (aquela cidade é um cenário a céu aberto!), eu vinha do Museu D’Orsay para o hotel, no Boulevard Saint Germain, e me deparei com uma casa diferente, na esquina, bem ao lado da Academia Francesa de Letras. Na porta estava escrito Lapérose – Maison du Vin. Como falo francês tão bem quanto aramaico, mas queria entrar de qualquer jeito, pedi a uma colega jornalista que viveu anos em Paris que servisse de intérprete.

Quando o maitre-sommelier nos atendeu, agredeci a minha amiga e adorei o fato de ele ser português. Baco tinha me colocado no lugar certo. A casa pertencia a uma empresária portuguesa e todos lá falavam um pouco da língua lusitana. O Sr. Antonio nos levou a um tour pelo ambiente, dividido em vários níveis entre dois andares, com as paredes ainda cobertas pela seda original e decorada com vários retratos feitos em nanquim e revelando os ilustres que freqüentaram a casa nos seus 50 anos de apogeu, entre 1820 e 1870.

Sarah Bernard, Baudelaire, Voltaire, Millet, Rossini, Manet, Alexandre Dumas, Delacroiax, Jules Verne. Essas e outras tantas personalidades da cultura, política e da moda freqüentavam a casa – e deixaram lá seus retratos ou sob as mesas prediletas ou nos reservados exclusivos. Várias repartições da casa são fechadas, com porta e ambiente para 2, 4, 6 e 8 pessoas.

Inaugurada em 1766, Lapérouse tem ao centro do salão principal uma mesa com 24 lugares, para degustações dirigidas. O maitre de então tinha uma árdua tarefa: abrir, horas antes, uma garrafa das que seriam oferecidas e provar aquele maravilhoso vinho. Dei sorte! Naquela noite haveria uma cerimônia de apreciação de um dos mais prestigiados vinhos de Bourdeaux, um Chateau Margaux 1982 (US$ 1.682,20 ao preço de hoje). Se eu tomei esse vinho? É claro, um cálice de licor dele, que valeu muito à pena.

Um jantar para casal na Maison Lapérouse, dos mais modestos, não sai por menos de 250 euros. Há alguns anos, a casa voltou a ser um endereço badalado. Recentemente, o estilista John Galliano listou a Maison Lapérouse entre os dois melhores restaurantes de Paris. Talvez pela aura, talvez pelo glamour ou simplesmente pelo berço.

A Maison Lapérouse surgiu no momento mais crítico da monarquia francesa. Em 1766, quando o rei Luís XVI resolveu transferir a corte para Versailles, o chefe da adega real, Monsier Lefévre disse que não iria e pediu ao rei para ficar com o estoque da adega como pagamento de seus serviços. Ele então abriu um restaurante à margem do Senna, no número 51 da quai des Grands Augustins. Da janela, você vê a catedral de Notre Dame.

Mais tarde, fui à missa na Catedral de Santa Genoveva, a padroeira de Paris. Estava num grupo de 14 pessoas. Todos famintos! Nenhum de nós conhecia aquela região, bem pertinho da Sorbonne. Passava das 19h30 e chovia fino quando avistei uma portinha despretenciosa e falei: “olha ali um pub!” Entramos no tal bar, chamado L’ecurie – fica na primeira esquina logo abaixo da igreja, no sentido rue des Ecoles.

Não se dá nada pelo lugar, à primeira vista. Pior ainda se você encontrar uma mesa vaga logo na chegada. Mas o local estava lotado e o gerente nos encaminhou para o andar de baixo. Também estava cheio, com casais, mesas de dois lugares. Então descemos mais um lance de escada, dessas espirais, de ferro, bem antiga (“deve ter uns 200 anos!”, pensei). Havia uma mesa grande e outras 4 menores. Ocupamos a maior delas, pedimos um vinho, o cardápio e começamos a conversar com o gerente. Qual não foi nossa surpresa, e minha ainda maior, ao descobrir que as escadas tinham mais de 200 anos. A casa fora aberta em 1624 e funciona ainda hoje, quase 400 anos depois.

Essa taberna tem história e por estar no centro de um bairro estudantil, você come e bebe a um preço justo, na casa de 30 euros por pessoa e a pelo menos 30 metros abaixo da rua. Como meu dinheiro não dava para comer no Lapérouse, jantei no L’ecurie. Boa a comida! Todos pedimos o mesmo prato, um cardápio fechado que, na época, custou 16 dólares. Hoje, calculo que chegue a 30 euros: Bavette steack na brasa a dijonaise (molho de mostarda Dijon). De sobremesa, creme de caramelo em formato de flã.

O vinho pode ser o da casa. Nessa região, geralmente, você bebe um bom Cote du Rhône a preços módicos. Mas nós optamos por um Pinot Noir da Borgonha, um Guyot, e bebemos umas 6 garrafas. O enólogo, Olivier Guyot, estava despontando nessa época como um dos jovens promissores da região. Cada garrafa custou U$$ 25. Hoje, no Brasil, você compra a safra 2005 por R$ 140. Eu lembro que o vinho foi sugerido pelo gerente porque a tradição da família produtora tinha a mesma idade do restaurante.

Mas o diferencial do L’ecurie não acaba aí. Dada a idade da casa, quase um calabouço enogastronômico, muitas histórias estão cerradas em suas paredes de pedra, nos 70 metros de profundidade a que chegam seus salões. Naquela antiga taberna, soldados do rei e mosqueteiros da rainha – que não se entendiam nunca! – travaram disputas memoráveis e dali fugiam incólumes das perseguições. Da mesma, forma, durante a Segunda Guerra Mundial, heróis da resistência francesa ali se reuniam para traçar planos de contra-ataque e de fugas de judeus perseguidos pelos nazistas.

Como isso acontecia? No último salão, 70 metros abaixo da rua, há uma mesa de 20 lugares e uma lareira ao fundo. A lareira é falsa e leva a um túnel que vai dar na margem do Rio Sena. Dela eles fugiam de barco ou a pé. Assim eu aprendi que não basta apenas degustar um bom vinho ou saborear uma receita maravilhosa. Essas duas práticas têm de estar vincluladas de alguma forma à história do local onde você as aprecia”.

Maison Lapérouse
51 quai des Grands Augustins
Paris - França
Tel : 00 33 (0)1 45 72 07 14

Restaurant L’ecurie
2 rue Laplace, esquina com a rue de la Montagne de Ste. Geneviève.
Paris – França
Tel: 08 99 697 109

(*) Rodrigo Leitão é jornalista há 23 anos e atualmente é editor e produtor na TV Band e colunista de gastronomia, na Rádio Band News FM de Brasília. Nos anos 80, integrou as bandas Finis Africae e Pânico! e teve músicas gravadas também por Banda 69 e Cássia Eller. Já atuou nas áreas de Economia, Política, Internacional e suplementos, quando passou a ter contato mais estreito com turismo e gastronomia, na qual atua há sete anos.
Rodrigo Leitão assina o blog www.gourmetbrasilia.blogspot.com

3 comentários:

Sarah disse...

Uau!!! Estou maravihada!!! Parabéns, Rodrigo, por compartilhar conosco - e com riqueza de detalhes - essa gradiosa história.

Anônimo disse...

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