quarta-feira, 4 de maio de 2011

AO PÉ DO OUVIDO // Gosto e nariz cada um tem o seu

Por Rosualdo Rodrigues

Nesse tempo todo que tenho trabalhado em jornal comentando discos, aprendi que meu gosto pessoal nada tem a ver com boa ou má qualidade da música que ouço. Posso elogiar em uma resenha um CD e não fazer questão de tê-lo em minha discoteca (ou mantê-lo somente por ser fonte de informação), assim como posso guardar e ouvir repetidas vezes um CD cujos defeitos reconheci no meu texto escrito.

Erro, às vezes, quando espero esse discernimento de pessoas que não têm obrigação alguma de expor suas opiniões a milhares de leitores. Por causa disso me vi, recentemente, em duas discussões das quais devo ter saído como "o chato". Uma em uma mesa de restaurante com um amigo que não gosta de música brasileira e argumenta que ela, a música brasileira, é "mal produzida". Outra no Facebook, com uma amiga que não gosta de música francesa e afirma que "música francesa é palavras sussuradas com um piano ao fundo".

Não contesto o gosto de ninguém. Já disse um sábio que gosto não se discute e quem tem bom senso há de concordar. Gosto é afeto, identificação, envolvimento, prazer, emoção, empatia... É subjetivo demais. Jamais perderia tempo tentando fazer um ou outro gostar de música brasileira e música francesa, respectivamente. Nem acho que tenham obrigação disso.

O que me chateia é a argumentação. Na tentativa de racionalizar esse não gostar. Porque, passada a fronteira dessa subjetividade que é a questão de gosto, eu seria capaz de provar por A + B que a música brasileira não é mal produzida e que a música francesa não é só susurro e piano.

A favor da música brasileira, eu teria pelo menos mil exemplos. Mas para ficar em apenas um, eu citaria o CD Índia, de Gal Costa, que foi feito lá nos idos dos anos 1960/início dos 70 (não saberia precisar o ano agora), mas é de uma atualidade impressionante. Não só na parte criativa, mas de produção também. A favor da música fracesa, eu citaria Arthur H., com sua moderníssima mistura de pop-rock, jazz, chanson (recomendo o CD L'Homme du Monde)..., o rock de Calogero, o pop de Zazie, Axelle Red (é belga, mas conta, falo de música de língua francesa)...

Enfim, se eu não tivesse que correr para pegar um voo para Belém do Pará, me daria ao trabalho de argumentar mais e dar mais exemplos. Mas fica para um próximo post.

PS - Aos amigos (não) citados: não fiquem aborrecidos por usá-los como pretexto para este post. Juro que não é pessoal

3 comentários:

Olga Costa disse...

Entendo demais! O fato de não gostar desse ou aquele estilo musical não justifica o tipo de argumentação. Eu não gosto de reggae roots, por exemplo, mas não fico procurando uma razão, porque gostar verdadeiramente de uma música não passa primeiro pela razão. Você não pensa: ah, vou ouvir essa música porque vou gostar dela agora. Isso não existe! A música lhe pega desprevenido e você passa a ouvi-la incontáveis vezes. O elemento subjetivo, muito bem exposto aqui, não carece de definição ou explicação, simplesmente existe!

Anônimo disse...

Concordo plenamente com voce, Ups! Vc sabe que, no jornal, eu tbm tinha meus entreveros por desconfiar da critica "impositiva". Alias, Kant, na Critica do Juizo, faz consideracoes interessantes que apoiam nosso ponto de vista. Agora, va curtir uma MPB paraense (minha familia é dai, sabia?) e au revoir! Hehehehe... Luciano.

Rosualdo Rodrigues disse...

thanx, olguita. dia 16 aí.
luciano, muito boa a terra de sua família. já tinha vindo a trabalho. mas a passeio é melhor. abraço