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sábado, 13 de abril de 2013

ABROBRINHAS // Fome nas alturas

Luciano MilhomemColunista de Alimentação Natural do Gastronomix
Todo vegetariano que se preze já passou fome no ar. Dentro do avião, viu o passageiro ao lado saborear um sanduíche de presunto, uma lasanha à bolonhesa, um medalhão de frango ou um filé à parmegiana, e teve de se contentar com três bolachinhas de sal ou um saquinho de amendoim. Bem... Vale dizer: nos bons tempos de caprichados serviços de bordo!


Em tempos de barrinhas de cereal – e olhe lá! – esse mal-estar tornou-se menos comum. Mesmo assim, ainda acontece. Na hora do lanche em pleno vôo, as companhias aéreas brasileiras dificilmente têm algo decente a oferecer aos passageiros que não comem carne.


Já passei fome nas alturas, como muita gente que faz vôos em território nacional. A maioria das empresas só dispõe de alimentação especial para vegetarianos em rotas internacionais. Fiz uma pesquisa nos sites dessas companhias e telefonei para algumas. Descobri que somente uma – a Avianca – oferece cardápio vegetariano para quem voa dentro do Brasil. Segue o resultado de minha breve investigação (em ordem alfabética):

AVIANCA
Em todas as rotas domésticas, a empresa oferece refeições, incluindo sobremesas, pães e frutas. Há troca constante de cardápios em ciclos. Também serve refrigerantes, água, sucos e café. Nos vôos internacionais, há lanche quente logo após a decolagem, além de café da manhã contendo frutas, bolos, pães variados e duas opções de pratos quentes, à escolha do passageiro, para almoço e jantar.

Para beber, dispõe de vinho branco e tinto, uísque, vodka, cerveja e chás. Única companhia aérea a servir alimentação vegetariana em vôos domésticos, a Avianca exige apenas que o passageiro faça o pedido de refeição especial com 48 horas de antecedência. Detalhe importante: essa regalia só vale para vôos com mais de 1 hora de duração, o que não deixa de ser uma vantagem mesmo assim.

AZUL

Oferece serviço de alimentação a bordo. Como bebida, tem Coca-Cola, Cola-Cola Zero e sucos de caixinha nos sabores laranja ou pêssego, também na opção light. Para comer, há cinco tipos de lanche: amendoim, bolacha integral, rosquinha de leite, biscoito salgado integral, biscoito de chocolate recheado sabor baunilha, biscoito “sortudo”, batata chips, goiabinha, aviõezinhos ou mix aperitivo. Serve os snacks em cestas de vime, eliminando assim os carrinhos que tanto atrapalham a circulação no corredor.

GOL
Recentemente, a companhia parou de servir alimentação gratuita a bordo. Quem sentir fome no ar deve pagar pelo próprio lanche. Todos os sanduíches à venda contêm carne. Pode-se sempre lançar fora o salame ou o blanquet de peru e comer o sanduíche só com queijo e tomate, por exemplo. Mas há kits de lanche sem carne, todos um tanto calóricos, deve-se lembrar.

SETE
A empresa serve apenas suco, biscoito integral e pão com mussarela e presunto. De novo, pode-se quebrar o galho lançando fora o presunto.

TAM

Só oferece refeições especiais, como a vegetariana, em vôos internacionais. Mesmo que o passageiro realize uma viagem internacional com conexão nacional, somente poderá solicitar o serviço de refeição especial para o vôo internacional. Para pedir refeição especial para o vôo internacional, o passageiro precisa verificar as opções do serviço e fazer o pedido com 48 horas de antecedência ao vôo por meio da Central de Vendas (4002-5700 – tarifação local). Para onde ainda não há esse serviço, o número é 0800-5705700.

Já para o passageiro internacional, a TAM dispõe de vários tipos de refeição especial. Elas podem ser de baixa caloria, baixo colesterol/light, comida para bebê, de fácil digestão, para crianças, para diabéticos, à base de frutas, com ou sem frutos do mar, hindu, kosher, muçulmana, sem glúten, sem lactose, sem sal, vegetariana, vegetariana oriental, vegetariana asiática, vegetariana jainista, ovolactovegetariana.

A companhia alerta que se deve sempre verificar se o serviço de refeição especial da preferência do passageiro está disponível para a rota de viagem dele. Faz isso por meio da Central de Vendas e Fidelidade (4002-5700 – tarifação local). Nos locais que ainda não possuam esse, o número é 0800-5705700.
A Passaredo não tem informações online sobre seu serviço de bordo, e obtê-las por telefone exige longuíssima espera, diferentemente de outras empresas. Confesso que desisti.

Na próxima Crônica, prometo trazer o resultado da pesquisa junto a companhias estrangeiras. Um passo, isto é, um vôo de cada vez. Boa viagem!

sábado, 23 de março de 2013

ABOBRINHAS // Nem gato, nem lebre

Luciano Milhomem
Colunista de Alimentação Natural do Gastronomix

Esta é uma história que vale a pena contar – ou recontar.Em 16 de janeiro, a autoridade sanitária da Irlanda declarou ter encontrado traços de DNA de cavalo em hambúrgueres vendidos como de carne bovina em supermercados do país. Governo e empresas relacionadas ao comércio de produtos de carne deram início a uma rigorosa investigação. Diante das descobertas, o governo irlandês decidiu envolver a polícia.

O fato logo se transformou em escândalo, que foi crescendo à medida que outros países da Europa identificavam o mesmo problema. Os europeus, claro, levaram um susto. De repente, deram-se conta de que levavam gato por lebre, ou melhor, cavalo por boi. Seus hambúrgueres, lasanhas, kebabs, entre outros produtos vendidos em grandes varejistas da Europa, continham, em alguns casos, até 100% de carne eqüina.

O escândalo adquiriu ainda maiores proporções porque envolveu grandes companhias de alimentação, normalmente acima de quaisquer suspeitas. Instalou-se a crise, uma crise de confiança, sobretudo. Como ter certeza de que o ravióli à bolonhesa do jantar não continha porções de – sabe-se lá! – carne de gato?

Claro que, além da proibição da venda de certas marcas, houve também drástica redução no consumo de produtos à base de carne nos países afetados, sobretudo nas grandes lojas. Segundo reportagem da agência de notícias Reuters, 60% de seus entrevistados sobre o tema no Reino Unido disseram que estavam optando por comprar de açougues locais, e 25% deles afirmaram que passariam a consumir peças de carne em vez de adquirir o produto processado.

No Brasil, como o Fantástico de domingo 11 de março mostrou, o açougue da esquina pode ser justamente um dos vilões da história, ao comercializar carne de abatedouros ilegais. Anos atrás, o Repórter Record já havia denunciado não só a existência desse tipo de abatedouro como também o abate irregular de cavalos, cuja carne se misturava à de boi em numerosos açougues brasileiros.
O escândalo europeu logo deu margem à discussão: afinal, carne de cavalo faz mal? Há duas questões em jogo nesse episódio. Em primeiro lugar, a questão cultural. Há países, como China, França e Indonésia, entre outros, onde a carne de cavalo é bem aceita na culinária local.
Em outros, está fora de cogitação. Se a embalagem não comunica corretamente ao consumidor a composição do que vai dentro dela, há quebra de confiança. Em um mundo globalizado, onde pessoas e mercadorias circulam largamente, esse tipo de comunicação é indispensável – e obrigatório por lei.


Em segundo lugar, há a questão da saúde pública. Independentemente de se apreciar a carne de eqüinos ou de ela ser saudável, como garantem alguns nutricionistas, ela deve estar livre de determinadas substâncias nocivas ao organismo humano. Não era o caso de alguns produtos à venda nas melhores (?) prateleiras da Europa.


Devo admitir que, diante do noticiário sobre carne de cavalo misturada à carne de boi, senti alívio por não comer carnes. Mesmo quando ainda as consumia, tinha resistência a todos os tipos que não fossem de boi, porco, frango ou peixe. Jamais ingeri carneiro, tartaruga, jacaré. Apesar de vegetais também poderem conter elementos nocivos, como agrotóxicos, há sempre a possibilidade de lavá-los bem. O que vem nas carnes – sobretudo depois de convertidas em bifes, estrogonofes, hambúrgueres – não se pode ver.

O escândalo da carne européia talvez leve alguns a tomar mais cuidado com o que comem e com a origem dos alimentos e finalmente cogitar a hipótese de interromper ou ao menos reduzir o consumo de carnes. No mínimo, terão uma preocupação a menos. Afinal, é impossível sair do supermercado com cenouras em vez de berinjelas ou confundir o sabor do repolho com o da couve-flor. No prato vegetariano, não há gatos nem lebres, cavalos nem bois.

domingo, 3 de fevereiro de 2013

ABOBRINHAS // Qual é o melhor?

Luciano MilhomemColunista de Alimentação Natural do Gastronomix

Qual é o melhor restaurante de comida vegetariana em Brasília? Já ouvi essa pergunta mais de uma vez e confesso que não tenho uma resposta. A gente sempre tem preferências, claro. Quando as menciono, segue-se a óbvia questão: por quê? Gosto é gosto, e mesmo se tratando de gastronomia, que conta com tantos connoisseurs, acho que há certa subjetividade nas escolhas. Com essa ressalva, ouso apontar as casas de comida vegetariana (ou natural) que mais me agradam na capital federal.
O restaurante Terra Viva, na Asa Norte, está entre meus favoritos. Acho o cardápio bastante variado: pizzas (imperdíveis), pastéis (especialíssimos), tortas, arroz integral com misturas diversas, saladas; além do previsível, ou seja, folhas, legumes, frutas. Há sobremesas e muitas opções de suco também. Acho tudo muito saboroso. O preço (self-service a quilo) está um pouco abaixo da média do mercado — R$ 35 (dias uteis) e R$ 39 (domingos e feriados). O fato de ficar em um subsolo e de haver, por parte dos donos, pouca preocupação com a decoração do espaço, é secundário para mim. Sempre encho o prato no Terra Viva. Não dá para resistir.
Foto: Groupon
Outro de minha predileção é o Naturetto, também na Asa Norte. Ali o espaço físico é mais aprazível. A maioria das mesas fica ao ar livre. O bufê é igualmente variado. Diferentemente do Naturetto Família, na Asa Sul, não há nessa filial o “sacrilégio” de uma grelha para quem aprecia carnes. A casa faz jus ao nome e só tem comida natural. Permite-se no máximo dois pratos à base de peixe. Fica nisso. O preço (self-service a quilo) é o de mercado — R$ 42,90 (a sobremesa tem peso diferente: R$ 37,90 o quilo).

Ainda na Asa Norte, recomendo A Tribo. De todos, é o mais preocupado com o visual. Também self-service, tem o diferencial dos pratos quentes em grandes tachos e panelas. Tudo parece estar mais quentinho. A carta de sucos, por sua vez, satisfaz paladares variados. As mesas do lado de fora são bem decoradas, e o ambiente é bastante agradável. Acho que há menos de variedade no cardápio de A Tribo, mas o restaurante é um pouco mais sofisticado que a média dos concorrentes. O quilo custa R$ 43,90.
No meu bairro, o Sudoeste, segue sem concorrência o Lótus Azul. A proposta da casa é servir comida natural. Por isso, oferece ao menos um prato de peixe e outro de frango. A ênfase, porém, está no cardápio sem carnes. O bufê de saladas e o de sobremesas ficam um pouco a desejar em termos de variedade, mas os pratos quentes (excelentes) compensam com opções para os gostos mais diversos. A feijoada de soja e as lasanhas de vegetal são marcas registradas da casa, que tem decoração caprichada e, talvez em função disso, preço um pouco mais elevado — R$ 44,90.

Há poucos dias, o Lótus Azul deu início a um treinamento com o chef Sebastian Parasole. Está reformulando o cardápio e promete muitas novidades, entre elas a produção própria de congelados, seguindo a linha saudável, e etiquetas estilizadas com o valor nutricional de carboidratos, proteínas, gorduras e a informação sobre o produto conter ou não glúten.
Foto Guia Uol
Na Asa Sul, meu predileto é o Girassol. Apesar de estar sempre cheio, a comida, ainda que sem grandes sofisticações, vale a pena. O preço está na média — R$ 39,50. Há variedade de sucos e sobremesas. Como nas demais casas do ramo, conta com sortido empório de produtos naturais. A decoração é básica. As mesas do lado de fora, aos fundos da quadra, são bem disputadas, possivelmente pela proximidade das árvores e pela distância da rua. A casa também oferece cursos e palestras relacionados à adoção de uma vida mais saudável.

Ainda sinto falta da Oca da Tribo, que um incêndio destruiu em 2011 — de longe, o restaurante natural mais agradável em termos de ambiente e decoração em Brasília. Era uma oca de fato, o que acabou por prejudicá-lo. O fogo consumiu a palha e a madeira em minutos.

Brasília possui dezenas de restaurantes vegetarianos, naturais, macrobióticos, veganos. Esses são apenas os meus prediletos. Outros adeptos da comida sem carnes talvez tenham preferências diferentes da minha. Desconheço restaurantes desse tipo ruins na cidade.

Levo em conta a variedade do cardápio, o sabor da comida e o ambiente. Mas não sou crítico gastronômico, então lanço aqui a sugestão: que os bons chefs ou especialistas em gastronomia da capital visitem essas casas e elejam as melhores após criteriosa avaliação. O resultado seria útil tanto aos proprietários quanto aos freqüentadores. Confesso, desde já, minha curiosidade para saber quais entrariam nessa lista.

sábado, 12 de janeiro de 2013

ABOBRINHAS // Resolução de ano novo

Luciano MilhomemColunista de Alimentação Natural do Gastronomix

Um novo ano costuma ser pretexto para mudanças. Fico pensando se alguém incluiu, nas tradicionais resoluções de ano novo, cortar ou reduzir as carnes. Aposto que, antes delas, vêm os doces, as massas, as gorduras saturadas. De qualquer forma, para os poucos e bons que decidiram adotar o vegetarianismo ou a redução de algum tipo de carne a partir de 2013, aqui vão algumas dicas.

Um passo de cada vez. Muita gente desiste no meio do caminho porque radicaliza logo no início. Eu mesmo deixei primeiro as carnes vermelhas. Só um ano depois, abandonei também as de ave. O organismo precisa se acostumar, inclusive com a menor ingestão de proteína animal. Há quem consiga alterar a dieta numa tacada só. Em todo caso, aos menos apressados, recomendo ir reduzindo o consumo de carne aos poucos até interrompê-lo em definitivo. Com isso, testa-se o organismo, avalia-se o impacto da decisão.
Apoio de especialistas. Quem resolve parar de comer carnes deve se lembrar de que essa decisão envolve profunda alteração na quantidade e até na qualidade de substâncias essenciais para o organismo humano, como proteínas e vitaminas. Daí a importância de se consultar um nutricionista, um nutrólogo ou mesmo um endocrinologista. De preferência, os dois primeiros. Esses profissionais poderão dar a segurança de que a nova dieta não comprometerá a saúde do mais novo vegetariano do pedaço.
Convicção. Adotar o vegetarianismo porque acha essa dieta mais chique ou antenada com o século 21 é bobagem. Quem deseja realmente ser vegetariano tem de estar convicto no mínimo de um destes três aspectos: o físico (relacionado ao corpo, ao bem estar físico, ao processo digestivo), o ideológico (mais no sentido de visão de mundo, posição política) e o espiritual (referente a crenças religiosas). Há quem esteja mais (ou exclusivamente) preocupado com a parte física. Busca apenas uma dieta que considera mais leve e saudável. Há quem tenha mais em mente questões socioambientais, éticas, de direitos dos animais e o mercado de produção de alimentos. Nesse caso, a dieta converte-se em uma espécie de instrumento de pressão social para que não se matem ou não se torturem tantos bichos.

Procura-se, pelo vegetarianismo ou por sua versão mais radical, o veganismo, romper com o ciclo de depredação da natureza e da manipulação capitalista dos hábitos alimentares. Já o religioso vê na dieta à base de vegetais um meio para a purificação espiritual – além de proteção à vida animal de forma irrestrita. Para ele, quanto menos denso o corpo, mais leve o espírito. Evidentemente, há quem combine todos esses aspectos ou dois deles. Em qualquer dos casos, há uma convicção, um propósito claro, um fundamento. Não se trata de modismo, de fase, de “onda”, de pressão do meio.
Paciência e bom humor. O “neovegetariano” deve estar preparado tanto para a curiosidade honesta quanto para as insinuações maldosas. Sugiro paciência e bom humor para lidar com todos. Haverá perguntas que exigirão conhecimentos específicos que o recém-adepto do vegetarianismo ainda não adquiriu. Haverá piadas e até provocações. Que o “neovegetariano” tenha em mente o seguinte: na maioria das vezes, o engraçadinho tem uma ponta de inveja (totalmente infundada!) ou de culpa por não conseguir adotar a dieta vegetariana.

Humildade. Curiosamente, há também muita gente que, ao invés de censurar, admira e aplaude quem se torna vegetariano. Daí que alguns levem isso demasiadamente a sério e se envaideçam. Bobagem! Deixar de comer carnes não faz necessariamente uma pessoa melhor. Ela pode até se achar mais espiritualizada ou mais política e ecologicamente correta, mas deveria saber que uma dieta por si só não transforma ninguém em Gandhi. Há vegetarianos mal-feitores por aí, assim como há carnívoros com um coração imenso. Uma porção de humildade cai muito bem com um prato de alfaces.
E que o “neovegetariano” se anime! Bares e restaurantes oferecem cada vez mais opções para quem não come carnes. O convite é para um churrasco? Não faz mal. É só comer antes, levar um Engov no bolso ou na bolsa e aproveitar a cerveja gelada ao lado dos amigos. O ano só começou!

sábado, 15 de dezembro de 2012

ABOBRINHAS // Papai Noel verde e branco


Luciano Milhomem
Colunista de Alimentação Natural do Gastronomix

Outro dia, publiquei aqui uma crônica sobre as piadas que tem vegetarianos como tema (ou deveria dizer ‘como alvo’?). Hoje, sigo linha oposta, a das campanhas por um Natal sem carnes. Elas variam muito, o que só as torna mais interessantes. Se ainda não há, deveria haver um estudo sério sobre essas campanhas.

Há as bem-humoradas, as religiosas, as que apelam à consciência e até as que recorrem à culpa – e mesmo as que fazem uma salada de tudo isso junto. O cardápio é realmente sortido. Começo pelas que pegam mais pesado.
Um cartaz mostra um peru assado, cravado por quatro facas – três na região do pescoço e uma no meio da barriga. A foto da ave está sobre um fundo vermelho. As facas são pretas. Em letras brancas, de tamanhos diferentes, o apelo: “Natal? O Natal é a solenidade cristã que celebra o nascimento de Jesus Cristo. Você vai realmente celebrar a vida com um bicho morto? Inove neste Natal! Não celebre a vida com a morte!” Essa última frase tem, ao lado, um peru vivo e de pé. O leitor deve ter prestado atenção ao fato de que as cores empregadas no anúncio são as mesmas da vestimenta de Papai Noel.

“HUMANOS – seres contraditórios. Que paz é essa que as pessoas tanto pedem no Natal e no Ano Novo se é a época do ano em que mais se mata animais para consumo?”, acusa outro cartaz. Ao lado dessa mensagem, uma foto de um leitão assado com uma maçã vermelha na boca e uma azeitona verde no lugar de cada um dos olhos. O bicho está sobre uma bandeja de salada. Abaixo da imagem, outro apelo verbal: “Que infeliz Natal para eles!”.
Um dos reclames combina humor e apelo emocional: “Neste Natal, não coma o presépio.” Esse tem mais de uma versão. Altera-se a imagem, mas a mensagem não muda. Outro mostra um “homem das cavernas” a segurar um pedaço de madeira. Acima dele, a inscrição: “Como você, sua ceia de Natal precisa evoluir.” A autoria é de um grupo vegano, que distribui receitas para um Natal sem carnes.

Entre os bem-humorados, está o cartaz que mostra o desenho de um peru a dizer: “Neste Natal, o presente que eu quero é continuar VIVO...”. Um anúncio em inglês também recorre ao humor. Mostra a figura de um prato coberto por uma tampa de metal. Abaixo dele, em letras garrafais: “We serve vegetarians. Just tell us how you’d like them prepared.” Assinatura: “J.D Hoyt’s – A restaurant for carnivores” (algo como “Servimos vegetarianos [em inglês, subentende-se ‘pratos vegetarianos’]. Basta nos dizer como você os prefere. J.D Hoyt’s – Restaurante para carnívoros”).

Confesso que não faço campanha alguma. Não imponho minha dieta a ninguém, embora a recomende a quem me peça opinião. Tampouco, tenho algo contra quem divulga os benefícios de não se comer carne – ou os possíveis malefícios resultantes de seu consumo. Só acho que os militantes vegetarianos e veganos conquistariam mais adeptos se optassem pelo bom humor em vez do apelo à culpa ou do ataque puro e simples.
Relatei aqui a iniciativa dos veganos na Rio+20. Distribuíam sanduíches à porta do Riocentro, vestidos de vaquinha, sorridentes. Nada impunham. Nada exigiam. Apenas estimulavam, pelo sabor, uma dieta livre de produtos animais. Onde está o espírito de Natal em campanhas agressivas, que impingem culpa ou repulsa? Também já postei, neste blog, crônica sobre o que dizem o Velho e o Novo Testamento quanto ao consumo de animais na alimentação. Não há palavra sagrada definitiva sobre o tema. Jesus teria multiplicado peixes...

O Natal deve ser a ocasião por excelência de toda tolerância possível. É tempo de confraternização. Se todos abrissem mão de perus e leitoas, tanto melhor. A ceia seria bem mais leve. Só que hábitos alimentares, arraigados em uma cultura milenar, não se alteram da noite para o dia. Mesmo que essa noite seja a noite de Natal. Sugestão aos vegetarianos mais radicais: fazer como alguns de seus pares, que distribuem receitas para ceias sem carne.

O Lótus Azul, restaurante de comida natural em Brasília, por exemplo, recomenda: “Brincar com as nozes e as castanhas nas receitas natalinas é a pedida da temporada – destaque para o bife de mandioca com castanha e o espaguete ao molho sugo com almôndegas de soja e castanha-do-pará, um prato exclusivo da casa”.
Sugestões são ótimos presentes – simpáticos, fraternos e compatíveis com o espírito da época. A propósito, segue abaixo minha lembrancinha. E um feliz Natal!

BOLO-REI VEGETARIANO

Ingredientes
- 100g de farinha de trigo integral
- 200g de farinha de trigo
- 40g de manteiga de soja
- 15g de fermento
- 130 ml de leite de soja
- 2 colheres de sopa de malte de trigo
- 30g de açúcar mascavo
- frutos secos a gosto (miolo de nozes, pinhões, amêndoas peladas e avelãs)
- 40g de uvas passas
-leite de soja (para pincelar)

Preparo
- Em uma tigela, reúna todos os ingredientes, exceto as passas e os frutos secos. Amasse-os bem e depois os deixe descansar por cerca de 20 minutos. Em seguida, acrescente os frutos secos e as passas e forme uma bola com a massa. Deixe descansar por mais alguns minutos.

- Depois, forme com a massa uma coroa (um círculo com um buraco no meio) e coloque-a em um tabuleiro untado e polvilhado com farinha. Pincele o bolo com algumas gotas de leite de soja e decore com mais frutos secos. Leve ao forno por cerca de 30 minutos.

sábado, 3 de novembro de 2012

ABOBRINHAS // Onde tudo começou...

Luciano Milhomem
Colunista de Alimentação Natural do Gastronomix

Conheci o Rancho do Peixe em 2008, quando passei temporada inesquecível em Jericoacoara, um dos paraísos praianos do Ceará. A pousada fica no vilarejo do Preá, a poucos quilômetros de Jeri. São 20 bangalôs, todos de madeira e palha, com decoração à base de chita estampada. Charmosos que só! Fiquei uma tarde toda lá. Relaxei tanto que dormi enquanto minha amiga Cris batia um papo animado com a gerente do lugar e uma funcionária.

Fomos lá para almoçar e acabamos voltando somente à noitinha. Nunca me esqueci daquela tarde, até porque tirei várias fotos. A vista é sedutora. Não me espanta que conquiste tantos turistas. Naquela época, não havia burburinho no Preá. A paz ali era completa.
Jeri sempre foi a estrela entre as praias menos próximas de Fortaleza. Para quem não dispõe de um helicóptero ou de uma camionete de tração 4 x 4 – caso da maioria dos visitantes –, a opção é uma longa jornada de ônibus da capital cearense até o município de Jijoca e, de lá, uma hora numa jardineira que vai sacolejando sobre as dunas até Jeri. Mas cada minuto da viagem tem sua recompensa depois.

Lembro-me de que foi em Jericoacoara, em 2007, que deixei de comer carne vermelha. No ano seguinte, lá também, interrompi o consumo de carne de frango. Jeri foi, portanto, o primeiro cenário da mais profunda alteração em minha dieta. Qual não foi, então, a grata surpresa quando recebi, de meu amigo Rodrigo Caetano, a mensagem que informava: “Pousada no CE cria cardápio exclusivo para hóspedes vegetarianos”!

O Rancho do Peixe oferece, agora, petiscos, pratos, sopas, saladas, risotos e massas sem carne. A pousada comunica que adaptou pratos típicos, como bobó de camarão, moqueca de peixe, além de estrogonofe, lasanha e filé à brasileira, para os hóspedes que não comem carnes. O novo cardápio, claro, agrada também aos que preferem refeições mais leves. Oferece, por exemplo, “Bobó de palmito”, feito com palmito refogado na manteiga, cebola, tomate, pimentão, azeite de dendê, leite de coco, creme de mandioca e requeijão, e vem servido com farofa de dendê, arroz branco e salada.
O “Strogonoff à delícia” agora, em vez de carne, leva berinjela. Na receita, entram também manjericão, tomate seco e azeitonas. Ainda é servido com arroz, porém integral, e batata palha. O tradicional “Filé à brasileira” também está de cara nova: berinjela empanada com castanha de caju e parmesão. O prato vem acompanhado de arroz integral, feijão, ovo frito e couve refogada.

Entre os petiscos, destaca-se o bolinho de soja. Há também grelhados bem diferentes dos tradicionais. O “Grelhado Vegetariano” é composto por berinjela grelhada, castanha de caju, alcaparras, queijo Minas frescal, manjericão e vinagre balsâmico. O “Grelhado de Abóbora” leva à mesa abóbora cortada em tiras finas e grelhadas no azeite ao molho de azeitonas pretas e pimenta dedo-de-moça. Para os fãs de comida com toque agridoce, o “Grelhado de Legumes” é a pedida. Leva abobrinha, abóbora, berinjela, palmito, tomate, manga e gengibre.
Há risotos “verdes” também. No “Vegetariano”, entram limão siciliano, alho poró e parmesão. No “Caipira”, ervilha, milho verde, abóbora, queijo coalho, tomate fresco, leite de coco e salsinha.  Além disso, há quatro opções de molhos para os amantes de massa: os novos “Spaghetti com Legumes ao Shoyu”, que leva cenoura, repolho branco, cebola roxa, brócolis, pimentões e shoyu, e “Picante”, com alho, azeite, pimenta dedo de moça e parmesão. As sopas de abóbora, com alho poró e gengibre, e a de feijão, com couve, macarrão e batata, também prometem!

Agora, tenho mais um bom motivo para retornar a Jeri e ao Preá. Como sempre, o único problema, depois, é voltar para casa...

Rancho do Peixe (Preá-CE)
E-mail:reservas@ranchodopeixe.com.br

sábado, 29 de setembro de 2012

ABOBRINHAS // Entre alfaces

Luciano Milhomem
Colunista de Alimentação Natural do Gastronomix


Quem decidir parar de comer carne deve se preparar para os engraçadinhos. Eles estão em toda parte e sempre prontos a perder um amigo, mas não a piada. A preferida deles é com alfaces. Na verdade, são muitas piadinhas, todas bem parecidas. Associam a morte de um animal com a morte de uma alface, ou seja, segundo os engraçadinhos, quem come vegetal também é responsável pela morte de um ser vivo. Uma falácia, claro, mas que faz (ou quer fazer) alguns rirem.
Como piadas não são mesmo para se levar a sério, reproduzo algumas aqui sem temor de ofender vegetarianos. O leitor julgará por si próprio se elas realmente merecem que os adeptos da dieta sem carnes se irritem com elas.

Na festa de fim de ano do Clube dos Vegetarianos, o presidente começa seu discurso:
--
Vou ser breve, senão o nosso jantar murcha!
Quando parar de dar gargalhadas, o leitor pode ler mais esta:

O que o canibal vegetariano come?
-- A planta do pé e a batata da perna.
Há, inclusive, as “picantes”:

Sabe qual é o cúmulo dos vegetarianos?
--- É levar uma mulher pra trás da moita e... COMER A MOITA!
Sabe por que a vegetariana não goza?
-- Para não ter que admitir que um pedaço de carne lhe dá prazer.


Os realmente criativos apelam para desenhos e até tirinhas:

É claro que muitos engraçadinhos são somente isto mesmo: engraçadinhos. Não há maldade neles. Mas uma busca na internet pode levar a descobertas curiosas. Há mesmo quem afirme odiar vegetarianos. Acusa-os, por exemplo, de arrogantes. Não duvido de que haja vegetarianos que se julguem superiores porque não comem animais. Há muitos, porém, que estão se lixando para o que os outros comem. Apenas se sentem melhor com uma alimentação mais “verde”.

Não sou psicólogo, mas tenho cá meus palpites. Suspeito de que os mais implicantes, os mais incomodados com a existência de vegetarianos, sentem um misto de culpa e inveja. No íntimo, gostariam de não sentir tanta paixão por carne animal, mas não conseguem parar de consumi-la. Então, projetam essa frustração nos vegetarianos. Realmente, não sei se estou certo, mas não me surpreenderia se estivesse -- ao menos em alguns casos.

Fato é que uns e outros estarão muito melhor se continuarem no campo verde e florido da brincadeira. Que falem abobrinhas! Sem trocadilho.

sábado, 14 de julho de 2012

ABOBRINHAS // Os veganos e a Rio+20

Luciano Milhomem
Colunista de Alimentação Natural do Gastronomix

Entre os muitos grupos de ativistas presentes nos eventos paralelos da Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável, a Rio+20, um especialmente me chamou a atenção: os veganos, aqueles que não consomem absolutamente nenhum tipo de produto animal. À entrada principal do Riocentro, onde se realizavam as negociações da ONU, veganos fantasiados de vaquinha distribuíam sanduíches deliciosos a quem passava. Sim, distribuíam. Davam. Não cobravam um centavo.

A estratégia me agradou porque havia algo nela de gentil, respeitoso, simpático. Em vez de bradar slogans e condenar quem consome produtos animais, esse grupo de veganos preferiu seduzir pelo paladar. Mostrou que comida sem produto animal também pode ser saborosa. Aposto que muita gente se tornou ao menos simpática ao movimento vegano. Afinal, não são poucos os que nutrem preconceito contra quem só come vegetal.

Claro que esse grupo de veganos aproveitava para disseminar sua mensagem. Junto ao sanduíche – salvação de muitos que não tinham tempo para lanchar na praça da alimentação do Riocentro – anexava dois pedacinhos de papel. Um deles trazia uma tabela que informava o valor nutritivo do lanche em comparação com um sanduíche de carne tradicional:

A dieta vegana é o começo de um mundo sustentável
Maionese sem leite animal: leite de soja, óleo vegetal e limão.
“Carne” de soja: soja, sabores naturais.
Nutrição:

Proteína de soja (carne de soja)
Carne comum
35%
13-25%
Leite de soja
Leite de vaca
7,5%
3%



O outro papelzinho anunciava:

Seja vegano para poupar:
1.    70% do desmatamento da Amazônia para a pecuária.
2.    70% da terra cultivável mundial para alimentação de gado.
3.    70% da água usada na pecuária.
4.    1/3 da produção mundial de grãos utilizada para a pecuária.
5.    30% da extinção de espécies no mundo.
e
6.    Reduzir o gás metano (GHG) em até 51%.
7.    Remover o CO2 pela agricultura orgânica.
8.    Prevenir contra a desertificação.


Confesso que não verifiquei a precisão dessas informações. Em todo caso, independentemente de serem mais ou menos fiéis à realidade, é mesmo fato que as dietas vegana (mais que isso, o estilo de vida vegano) e vegetariana, se adotadas em larga escala, contribuiriam enormemente para a redução do impacto ambiental da pecuária.
Outro grupo vegano, a propósito, chega a defender o “caminho orgânico vegano” como a resposta para os grandes problemas socioambientais da humanidade. Seguidores da “mestra” vietnamita Ching Hai, esse grupo também distribuiu refeição gratuita no Riocentro, juntamente com um kit que reunia dois livros, um mais doutrinário (“Da Crise à Paz – O Caminho Orgânico e Vegano é a Resposta”) e outro de receitas (Cozinha Orgânica Vegana – Para uma vida sustentável e segurança alimentar), além de uma camiseta.

Há elevada dose de romantismo em grupos como esses, especialmente o vietnamita, mais doutrinário (o primeiro tem no comando uma jovem de Goiânia, muito simpática e aparentemente nada radical). Parece-me utópico defender a causa vegana em um mundo onde bilhões de pessoas consomem carne prazerosamente todos os dias (além de milhares de outros produtos de origem animal) e, com isso, movimentam bilhões de dólares no mercado. Mais realista seria advogar pela redução do consumo de carnes, conforme prescreve a própria Organização Mundial da Saúde, baseada em pesquisas que comprovam os malefícios da ingestão desequilibrada de carne vermelha.

Em todo caso, vejo como um avanço, em termos de marketing, a distribuição gratuita de comida vegana como forma de disseminar esse tipo de cozinha, legítimo como qualquer outro. Serve como exemplo para os próprios governos que distribuem merenda escolar gratuita, os quais poderiam adotar um dia sem carne como forma de estimular a redução do consumo de um produto animal de elevado impacto no meio ambiente.

 


sábado, 26 de maio de 2012

ABOBRINHAS // A vez dos orgânicos

 Luciano Milhomem
Colunista de Alimentação Natural do Gastronomix

Quando entrar setembro, a publicação de Primavera Silenciosa fará 50 anos. O famoso livro da bióloga norte-americana Rachel Carson foi pioneiro na denúncia dos agrotóxicos como nocivos à saúde humana e à vida selvagem. Dez anos depois de lançado, resultou no banimento do pesticida DDT nos Estados Unidos. Carson não viveu para ver a atual expansão do consumo de alimentos orgânicos, mas deixou como herança vasta produção e um grito de alerta em defesa do meio ambiente, grito que ainda ecoa mundo afora.

Para se ter uma ideia, reportagem do
Correio Braziliense, publicada há poucos dias, informa que o mercado de alimentos orgânicos movimentou R$ 50 milhões no Distrito Federal em 2011. O segmento avança entre 20% e 30% por ano em terras brasilienses. Ainda segundo o jornal, a produção agrícola livre de agrotóxicos e fertilizantes químicos ultrapassa 5,7 toneladas por ano no DF, a maior parte dela de legumes. Os orgânicos ainda representam apenas 2,5 dos alimentos comercializados por aqui, mas os produtores esperam chegar a até 30% desse mercado em dez anos.
Interesse há, inclusive no governo, em difundir o saudável hábito de consumir produtos ambientalmente corretos. Na próxima segunda-feira 28 até o dia 3 de junho, tem lugar em Brasília a VIII Semana dos Alimentos Orgânicos, parte de uma campanha do Ministério da Agricultura para esclarecer os consumidores sobre o que são os produtos orgânicos, a partir de uma abordagem que destaca os benefícios ambientais, sociais e nutricionais desses alimentos. Estão previstas atividades também em Alagoas, Amapá, Bahia, Espírito Santo, Minas Gerais, Rio Grande do Sul, Santa Catarina, São Paulo e Tocantins.

Acho que cabe o esforço de disseminar conhecimento sobre a alimentação natural. Há muito que se aprender sobre alimentos orgânicos. Eu mesmo só descobri há pouco tempo que não basta ser livre de agrotóxico para um alimento ser orgânico. Segundo especialistas do Ministério da Agricultura, para ser considerado orgânico, “o produto deve ser cultivado em um ambiente que considere sustentabilidade social, ambiental e econômica e valorize a cultura das comunidades rurais A agricultura orgânica não utiliza agrotóxicos, hormônios, drogas veterinárias, adubos químicos, antibióticos ou transgênicos em qualquer fase da produção.”


E como saber que aquele produto é realmente orgânico? A mesma fonte esclarece: “Conforme a legislação brasileira, em vigor desde janeiro de 2011, o consumidor reconhece o produto orgânico através do selo brasileiro ou pela declaração de cadastro do produtor orgânico familiar. Todo produto orgânico vendido em lojas e mercados tem que apresentar o selo em seu rótulo. Já o agricultor familiar precisa vender seus produtos diretamente, para que o consumidor possa estabelecer uma relação de confiança com ele ao comprar seus produtos na feira.”

Agora sei também que o Ministério da Agricultura conta, atualmente, com quatro certificadoras credenciadas, as quais fiscalizam as propriedades produtoras de orgânicos, responsáveis pelo uso do selo brasileiro. Cabe ao ministério, por sua vez, fiscalizar o trabalho dessas certificadoras.

O tema da alimentação ambientalmente correta é tão sério e relevante que já rendeu um filme no Brasil. O documentarista carioca Silvio Tendler lançou, no ano passado, O Veneno está na Mesa. Disponível na rede e distribuído gratuitamente por ocasião do lançamento, o documentário ilustra e denuncia o abuso dos agrotóxicos no Brasil e suas trágicas conseqüências tanto para quem produz quanto para quem consome alimentos.

Se faz bem a todos despertar para as vantagens da alimentação orgânica, para vegetarianos ou adeptos de uma dieta predominantemente vegetariana, o assunto merece ainda mais atenção.
Outras informações em:

sábado, 31 de março de 2012

ABOBRINHAS // Na Esplanada


Luciano Milhomem
Colunista de Alimentação Natural do Gastronomix

Diz o ditado que saco vazio não para em pé. Concordo. Tanto que, ao trocar de emprego, no mês passado, uma de minhas primeiras preocupações era onde almoçar. Afinal, eu estava habituado a comer em casa ou perto de casa, um luxo que perderia ao passar a dar expediente na Esplanada dos Ministérios.

Para quem não mora em Brasília, a Esplanada reúne todos os ministérios do poder executivo federal, o Palácio do Planalto, assim como as sedes dos demais poderes: Congresso Nacional e Supremo Tribunal de Justiça. Onde ficam os restaurantes ali? Melhor: onde ficariam os restaurantes naturais no coração do poder nacional?

Para minha surpresa e alegria, um deles -- quiçá o melhor -- fica justamente no bloco A (ao lado da Catedral de Brasília), onde trabalho agora. Admito que ouvi com certo preconceito a informação de que havia um restaurante no prédio. Imaginei logo um self-service mediano, do tipo que serve apenas o trivial. Ledo engano!

O restaurante é, de fato, um self-service, mas nada tem de medíocre. Oferece vasta gama de opções, inclusive para quem não come carnes. E o preço está muito abaixo do mercado. Daí tantos colegas dos ministérios vizinhos se deslocarem até o bloco A para o almoço -- só liberado, a quem não trabalha no prédio, a partir das 13h. Portanto, dou sempre um jeito de chegar lá até as 12h30.

Vale a pena. O cardápio varia bastante. Nunca faltam pratos de soja: croquetes, quibes, almôndegas, entre outros. No dia em que escrevi esta crônica, almocei estrogonofe de soja com arroz integral e diversos tipos de salada. Há dois buffets só com legumes, verduras e frutas.


Tortas de vegetais diversos também reforçam o menu, assim como pratos especiais à base de berinjela, abobrinha, chuchu, banana e por aí vai. Os fãs de massas não podem reclamar. Há buffet para eles. Quase sempre, há algum prato sem carne, como nhoque ao sugo ou espaguete ao alho e óleo ou penne ao molho branco.

As sobremesas são igualmente tentadoras. Musses, tortas, pudins desafiam minha disposição a fazer dieta. Quando a força de vontade sai vencedora, como frutas frescas: abacaxi, melancia, mamão, manga. Não dá para reclamar. Sim, há quem diga que, daqui a seis meses, já estarei enjoado do tempero e mesmo dos pratos. Talvez. Em todo caso, é uma "mão na roda" ter um restaurante com opções para vegetarianos na Esplanada dos Ministérios.

Além de comida saudável, o lugar permite que o servidor se livre do trânsito congestionado em um horário de pico. Recomendo. Trabalhe na área ou próximo dali, o visitante pode sempre ter uma experiência diferente. Sem preconceito.

(*) Luciano Milhomem é jornalista e bacharel em Filosofia. Mestre em Comunicação pela UnB e não come quadrúpedes e bípedes há mais de quatro anos.

sábado, 28 de janeiro de 2012

ABOBRINHAS // Um dia sem carne


Luciano MilhomemColunista de Alimentação Natural do Gastronomix

Quem lê estas minhas crônicas com freqüência já sabe que respeito preferências alimentares. Apenas não escondo as minhas. E incentivo quem pretende adotar uma dieta vegetariana ou principalmente vegetariana. Estou longe de militância, mais ainda de patrulhas. De qualquer forma, não resisto a divulgar aqui uma ação que me pareceu muito simpática, justamente porque não soa radical. Trata-se da campanha “Segunda sem Carne”.

Iniciativa da Sociedade Vegetariana Brasileira (SVB), essa campanha busca conscientizar sobre os impactos do uso de carne para alimentação no meio ambiente, incluindo aí, obviamente, a saúde humana e o bem-estar dos animais. Em síntese, a proposta é excluir a carne do prato pelo menos uma vez por semana (sugere-se a segunda-feira) e descobrir novos sabores.

A “Segunda sem Carne” inspira-se em iniciativas semelhantes existentes nos Estados Unidos, no Reino Unido, entre outros países, onde obtiveram apoio de líderes internacionais e artistas de renome, como o ex-Beatle Paul McCartney e o músico norte-americano Moby. No Brasil, tem a benção de Gilberto Gil e Marisa Monte, para ficar em dois exemplos. Lançada em São Paulo em outubro de 2009, mediante parceria entre a SVB e a Secretaria do Verde e Meio Ambiente (SVMA) da Prefeitura, a “Segunda sem Carne” estende-se aos poucos a outras cidades brasileiras.

Alguém pode se perguntar por que segunda-feira e não outro dia da semana. Segundo os organizadores, “a principal razão por trás dessa sugestão é que nós, brasileiros, frequentemente consumimos carnes em quantidade ainda maior durante o fim de semana. Na segunda-feira, normalmente as pessoas, por esse motivo, estão mais propensas a comer coisas leves. Pesquisas indicam que os restaurantes vegetarianos recebem mais clientes às segundas-feiras. Segunda-feira é também um dia de se iniciar coisas novas, como deixar de fumar ou começar um regime.”

A Secretaria de Educação de São Paulo já abraçou a ideia. No site da campanha,
www.segundasemcarne.com.br , o próprio secretário, Alexandre Schneider (foto), promete: “Em breve, as três mil unidades da rede municipal de ensino de São Paulo estarão servindo dois milhões de refeições sem carne todas as segundas-feiras.” Ninguém falou em excluir a carne da merenda ou da mesa de quem quer que seja pelo resto da vida, mas apenas por um dia.

Apoio essa campanha com alegria e recomendo a todos que ainda têm alguma dúvida sobre sua importância que assistam a este simpático vídeo, parte da ação internacional:
http://youtu.be/Je1MezUAEQw. Dura menos de 2 minutos. A trilha é uma canção do Moby e, para quem não lê em inglês, há legendas em português. Um dia sem carne não custa nada para uma pessoa e representa muito para milhões.

(*) Luciano Milhomem é jornalista e bacharel em Filosofia. Mestre em Comunicação pela UnB e não come quadrúpedes e bípedes há mais de quatro anos.

sábado, 10 de dezembro de 2011

ABOBRINHAS // Natal sem fome


Luciano MilhomemColunista de Alimentação Natural do Gastronomix

Inventei de voltar à nutricionista um mês antes das festas de fim de ano. Agora, olho para a dieta e me pergunto se vou conseguir ser forte o bastante para renunciar a porções extras de panetone, torta, frutas cristalizadas, nozes, castanhas, arroz com passas, enfim todos os acepipes típicos desta época do ano. Ela também me pediu para reduzir drasticamente o consumo de refrigerantes. É mole ou quer mais? Já não como carnes. O que me resta?

Parei para pensar e tive um pesadelo acordado. Imaginei uma confraternização à base de frutas frescas e sucos. Nada mais. Aprecio muitíssimo frutas frescas e sucos, mas passar uma tarde à base disso? E se a confraternização for à noite? Lá estou eu, em um bar, rodeado de amigos, tomando água mineral e, disfarçadamente, mastigando uma barrinha de cereais.

Enquanto isso, eles entornam cerveja gelada ou refrigerante com gelo, até mesmo espumante. Partem para as batatinhas ou mandioquinhas fritas, pastéis de toda sorte, quibes, esfirras, bolinhos. Pouco se importam se vão ganhar um, dois, três quilos. Querem se divertir. Dane-se a balança! Ali, o que pesa é a alegria de viver e conviver.

Masoquista, imaginei a ceia de Natal. Apesar de não ser tradicional e achar que a data não passa de uma convenção – afinal, a história já provou que Jesus não nasceu em 25 de dezembro – celebro o Natal com a família. É uma oportunidade para reunir os mais próximos e tentar uma confraternização nem sempre possível ao longo do ano, marcado pela pressa, pelo estresse, pela falta de tempo. E lá estou eu diante da mesa: salada de folhas verdes, salada de legumes (sem maionese), salada de frutas... Socorro!!!

Definitivamente, Juliana, não dá. Desculpe-me, mas não dá. Seguir a dieta que você me passou, nesta época do ano, me parece impossível. Posso tentar fechar a boca nos dias em que não houver confraternização. Posso tentar malhar mais pesado um pouco. Talvez eu corra mais alguns quilômetros.

Agora, não me peça para ignorar panetones, papais noeis de chocolate, bolinhos, rabanadas, arroz com passas, tortas de legumes, pães recheados, nozes, frutas cristalizadas, pasteis de queijo e de palmito, queijos e – perdoem-me, vegetarianos stricto sensu – até um Bacalhau à Zé do Pipo! Isso mesmo. Quem quiser pode me espancar em praça pública. Pode me converter em um Judas fora de época. Tudo bem. Só não me deixe passar fome.

Já imaginou eu virar para o porteiro do meu bloco ou para os lixeiros da minha quadra e dizer assim: “Olha, minha contribuição à caixinha vai ser modesta neste ano porque defendo dieta no Natal. Já que eu não como nada, para ser coerente, vou defender que todo o mundo feche a boca também.”? Com toda a razão, vão rir na minha cara. Dieta no Natal? Ninguém merece. Nem mesmo quem ganhou 3 quilos nos últimos meses. Afinal, de que adianta passar fome e se estressar? Já li e ouvi que estresse também engorda.

Quem não come carne, portanto, deve estar liberado para comer e beber tudo o mais. Que venham as saladas, as tortas, os bolos, os rocamboles, os pastéis, as massas! Que venham os sucos, os refrigerantes (podem ser zero cal), os vinhos, os espumantes! Está bem, Juliana, com moderação. Sem exageros. Mas também sem paranóia, sem sofrimento. Enfim, um Natal sem fome. E muito feliz. Para todos. Sem exceção.

(*) Luciano Milhomem é jornalista e bacharel em Filosofia. Mestre em Comunicação pela UnB e não come quadrúpedes e bípedes há mais de quatro anos.